A decisão recente de algumas corretoras, como a XP e a Rico, de zerar algumas taxas causou polêmica no mundo dos investimentos.

Primeiro porque várias outras corretoras já trabalhavam com taxa zero para custódia de títulos. Segundo porque, se não existe almoço grátis, de que forma o investidor está bancando a refeição dos corretores?

Existem diversos custos – alguns visíveis e outros ocultos – no modelo de negócios de uma corretora de valores. Para o investidor, o que conta não é o valor isolado de cada taxa, mas sim quanto dinheiro ele investiu e quanto ele vai conseguir resgatar no futuro, já descontadas todas as taxas e impostos.

O problema é que o seu dinheiro passa por muitas mãos entre o dia em que você aplica e o dia em que resgata. Existem o emissor do título, a corretora, os agentes autônomos, o seu banco, a BM&FBovespa etc.

Quem você remunera ao investir

Veja quanta gente está envolvida quando você investe.

Agente autônomo

> Quem é: Profissional credenciado por uma corretora para vender produtos financeiros ao investidor.
> O que oferece: Atendimento ao investidor. O agente autônomo tira as suas dúvidas e aponta possíveis soluções de investimento de acordo com seus objetivos.
> O que ele ganha: Uma comissão, conhecida como “rebate”, sobre o dinheiro que você paga à corretora.

Corretora

> Quem é: Instituição que recebe o seu dinheiro, registra que você comprou determinado ativo e repassa o valor para a BM&FBovespa ou para o banco.
> O que oferece: O serviço de operar a compra e venda de ativos por você. O investidor solicita, por telefone ou internet, e ela executa a ordem.
> O que ela ganha: corretagem (para renda variável); taxa de custódia (para títulos públicos ou privados); spread (para títulos privados).

BM&FBovespa

> Quem é: Empresa que administra os mercados de ações, de títulos públicos e privados.
> O que oferece: Organiza a compra e venda de ativos financeiros; o dinheiro que você transferiu para a corretora é repassado à BM&FBovespa, que por sua vez vai repassá-lo ao emissor.
> O que ela ganha: Há diversas fontes de receita, como os emolumentos (cobrados sobre o volume que você negocia em ações) e custódia (de 0,3% ao ano, no caso de títulos do Tesouro Direto).

Cetip

> Quem é: instituição que administra compra e venda de títulos privados.
> O que oferece: Registra compra e venda de determinados títulos privados.
> O que ela ganha: Taxas sobre os serviços.

Emissor 

> Quem é: Instituição que emite os papéis em que você investe. Por exemplo, os CDBs são emitidos por bancos; os títulos públicos, pelo Tesouro; os títulos privados, por empresas.
> O que oferece: Juros. Você compra os papéis hoje para resgatar um valor maior no futuro.
> O que ele ganha: Se for um banco, o spread – a diferença entre o que ele paga a você, na forma de juros, e o que ele recebe ao emprestar o seu dinheiro para outros. Se for uma empresa ou o governo, ganha recursos para financiar suas atividades, que depois serão devolvidos com juros.

Custos explícitos e ocultos

Para cada intermediário, o investidor paga de alguma forma, direta ou indiretamente. Às vezes, esse custo é explícito; outras vezes, oculto.

Cada custo tem a sua função. Nenhum deles está aí à toa. O caso é que eles geram também incentivos e interesses nos agentes do mercado, e nem sempre esses interesses coincidem com os do investidor.
Para explicar melhor, listo abaixo diferentes custos que você tem ao investir, destacando quais os interesses envolvidos.

Custos explícitos

> Taxa de administração: cobrada pela corretora para intermediar a compra de títulos do Tesouro Direto. Você transfere seu dinheiro para a corretora, ela compra os papéis e registra que eles pertencem a você. Cada vez mais instituições decidem isentar os clientes desta tarifa.

Algumas corretoras chamam isso de taxa de custódia. Porém, oficialmente o Tesouro chama de taxa de administração; ele considera como taxa de custódia aquela que é paga à BM&FBovespa, de 0,3% ao ano.

Normalmente, a taxa de administração fica entre 0% e 0,5% ao ano sobre o valor investido (http://www.tesouro.gov.br/web/stn/tesouro-direto-instituicoes-financeiras-habilitadas). Pela forma como ela é cobrada, poderíamos pensar que interessa à corretora convencer o cliente a investir o maior volume possível no Tesouro Direito.

No entanto, a taxa de administração em geral corresponde a uma pequena parte da receita de uma corretora, de modo que ela pode abrir mão dessa tarifa e compensar, por exemplo, com a corretagem.

> Corretagem: cobrada a cada vez que o investidor dá ordem para comprar ou vender ações ou algum outro ativo de renda variável. Se você dá cinco ordens de compra de R$ 1.000, paga cerca de cinco vezes mais do que se desse uma única ordem de R$ 5.000.

Consequentemente, a corretagem gera na instituição o interesse em que seus clientes façam muitas operações de compra e venda. O investidor de longo prazo, que compra hoje e vai vender daqui a cinco anos, não interessa a quem vive de corretagem.

O risco, nesse caso, é de que a corretora incentive seus clientes a comprar e vender com certa frequência, mesmo se para a necessidade dele o melhor fosse manter as ações por longo prazo.

> Custódia: cobrada pela corretora sobre investimentos em títulos privados. Pode ser um preço fixo ou uma porcentagem do valor investido, ou ainda uma combinação de ambos.

Assim como a taxa de administração, a custódia costuma gerar para as corretoras uma receita menor do que a corretagem.

Custos ocultos ou embutidos

> Rebate: é a comissão que os agentes autônomos de investimento ganham por trazerem clientes à corretora.

O percentual varia. O importante aqui é saber que o papel deles é vender os produtos oferecidos pelas corretoras.

> Consultoria: é o conhecimento que a corretora ou banco oferece ao cliente para ajudá-lo a escolher os investimentos.

As instituições financeiras produzem diversos estudos e não cobram por esse conteúdo. No entanto, os profissionais precisam ser pagos de alguma forma, então o custo da consultoria acaba sendo embutido nos demais.

> Spread: como explicado mais acima, é a diferença entre taxas de juros. No caso das corretoras, é a diferença entre o juro que elas recebem do emissor e o que elas pagam ao investidor.

Por exemplo: um banco emitiu um CDB de R$ 10 milhões, e oferece juros de 12% ao ano. Não é fácil encontrar alguém que queira investir uma quantia tão alta em um único papel. Por isso, o banco faz um acordo com as corretoras para que elas dividam esse título em cotas de, digamos, R$ 10 mil, e vendam essas cotas ao cliente final oferecendo juros não de 12%, mas de 10%. Essa diferença é chamada de spread e fica com a corretora.

Assim, se a instituição não cobra pela custódia, pode compensar oferecendo ao cliente os títulos com os quais ganha um spread maior – e que podem não ser a melhor opção para o investidor.

Conflitos de interesse

Primeiro é preciso deixar claro que não estamos falando aqui de atitudes irregulares ou antiéticas. Cada ator do mercado financeiro tem um papel a desempenhar e, como disse acima, nenhum está aí à toa.

O agente autônomo vende produtos da corretora, assim como uma padaria vende pães. Não espere que o padeiro diga a você que, naquele momento, você não deve comprar pães, e sim comer arroz e feijão no restaurante ao lado.

A corretora ganha com corretagem. É uma taxa cobrada por um serviço necessário. Mas não espere que ela recomende ações para você comprar hoje e vender só quando se aposentar, daqui a 20 anos.

O spread também é necessário. Custa dinheiro desmembrar um CDB em pequenas cotas e vender ao cliente, pois é preciso ter pessoas trabalhando para que isso seja feito de forma organizada.

Não se trata, portanto, de apontar que determinadas instituições estejam fazendo algo errado. O que é preciso destacar é que, devido aos conflitos de interesse, oferecer “taxa zero” não significa necessariamente maiores ganhos para o investidor. O intermediário pode estar simplesmente transformando um custo explícito em oculto, reduzindo a transparência sobre o que está sendo feito com seu dinheiro.

Atenção ao custo total da carteira

Mais importante do que se atentar às “taxas zero” é identificar qual será o custo total da sua carteira.

Claro, com tantas taxas e interesses envolvidos dá trabalho calcular esse valor. Uma solução é montar a sua carteira e perguntar ao banco ou à corretora qual será o custo total dela, ao ano, considerando todas as tarifas cobradas. Mesmo assim, é possível que você não tenha uma resposta completa, pois não sabe quantas vezes vai comprar e vender ativos ao longo do ano.

Na Magnetis, fizemos recentemente um estudo comparando o custo total de carteiras diversificadas em bancos e corretoras, buscando trazer maior transparência para o investidor.

Ok, mas em quem confiar?

Custo é um fator essencial a ser considerado em suas decisões de investimento, pois é uma das poucas variáveis que o você pode ter total controle ao montar sua carteira. E a forma como os agentes financeiros cobram por seus serviços diz muito sobre o que você pode esperar de cada um deles.

Tenha em mente que o principal interessado em seus objetivos financeiros será sempre você mesmo, e procure se questionar das motivações de cada recomendação que você receber. Se você quiser auxílio de um profissional sem conflito de interesse, que irá priorizar o que de fato é melhor para você, a taxa de consultoria é um bom indicador do nível de isenção do profissional.

Autor

Luciano Tavares

Luciano Tavares é fundador e CEO da Magnetis Investimentos. Administrador de carteiras credenciado pela CVM e planejador financeiro CFP ®, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

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Comentários

  1. JOSEPH    

    Luciano, obrigado por esclarecer esse ponto que agora entendo que tem interesses de cada um dentro de cada corretora, e de nao se fiar das recomendacoes dadas por eles ja que sempre vao torcer mais por eles, e no caso seria melhor confiar numa assesoria privada?. Valeu e parabèns pelo site.

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