25/10/2017

Na última segunda-feira (23) recebi diversos e-mails de vocês, que acompanham o Blog de Valor, acerca de uma “consulta” feita pela casa de análises Empiricus à sua base de assinantes sobre a possibilidade de a empresa se tornar uma corretora, pedindo algum tipo de opinião.

Confesso que me senti surpreendido com essa notícia e, inclusive, se isso for adiante, me parecerá algo bastante contraditório.

A bem da verdade, eu já não acompanho a Empiricus há algum tempo, porque não sou fã do chamado “marketing terrorista”, no qual se prega a dificuldade extrema para que se possa vender uma suposta facilidade.

Neste caso da Empiricus, a tal facilidade sempre foi apresentada como algum tipo de oportunidade mágica e imperdível, que levaria um investidor qualquer sair de R$ 1 mil a R$ 100 milhões em alguns dias (estou aqui exemplificando de forma exagerada, é claro, mas se somar as oportunidades imperdíveis, acho que teríamos realmente algo parecido com isso, ou até maior).

Conflito de interesse

Embora eu concorde com o argumento central da Empiricus de que bancos e corretoras possuem conflito de interesses na distribuição de investimentos, também enxergo um grande conflito de interesses na forma como a empresa faz seu marketing.

Se uma empresa vive de vender relatórios – como é o caso – então, dependendo de sua conduta, poderá sempre fazer comunicações alarmistas com intuito de chamar a atenção. É isso que me parece ocorrer com o caso da Empiricus. Constantemente nos extremos: ou tudo é uma grande oportunidade única ou o fim do mundo é daqui a alguns segundos. E, é claro, nos relatórios você tem a resposta para tudo isso.

Logo, há um flagrante conflito de interesses na postura da Empiricus, na medida em que as suas chamadas alarmistas se confundem com o seu produto, simplesmente por se tratar de um sistema que se retro-alimenta: primeiro o alarme e depois a solução.

A premissa para a própria existência do produto é a existência do alarme. Mas o alarme anterior é real? É ela própria que diz que é. Ela diz que existe um grande problema ou uma grande oportunidade e, adotando isso como premissa, então ela mesma – como a salvadora – tem a solução. Basta clicar no botão e resolver esse problema – real ou imaginário.

Já não dá para saber se o produto surge primeiro, e depois o alarme é criado para compor o argumento de venda, ou se o alarme existe de fato e, posteriormente, cria-se o produto. Como o tempo entre alarme e produto é curto, sou levado a pensar que a primeira possibilidade é mais provável.

É interessante também observar que a Empiricus sempre alardeou sobre bancos e corretoras. É a história batida de eleger um inimigo em comum. Algo como: “O banco e a corretora vão ferrar com sua vida, portanto, vamos dar um jeito nisso. Estou do seu lado investidor! Basta comprar meu relatório para fugir dessa armadilha!”.  Bancos e corretoras não são santos. Mas a empresas de análise também podem não ser. Portanto, o simples fato de acusá-los não a transforma em um arauto da independência, como ela deseja fazer crer.

Discurso, prática e lógica

Alardeiam que o banco vende apenas seus produtos – o que é verdade – e que corretoras ganham com tarifas – ocultas ou não – e spreads, o que também é verdade, e que por isso não prestam um serviço independente. Mas isso é uma coisa.

A outra coisa é que o simples fato de fazer estas afirmações não a transforma, automática e magicamente, no contrário disso. E alardear também não lhe confere poderes divinos para realizar a cura das mazelas do mercado financeiro. Trata-se, simplesmente, de uma falácia sem qualquer amparo lógico.

E, para comprovar que o discurso é tão somente um argumento e nada mais do que isso, o que faz a Empiricus? Envia um e-mail dizendo que está pensando em se tornar uma corretora. Não consigo ver atitude mais contraditória do que essa!

Certamente, uma nova narrativa será utilizada. Tudo aquilo, a partir de agora, poderá não ser exatamente assim, como diziam anteriormente.

É preciso que você, investidor, se atente e não caia no argumento sem observar a situação como um todo. O fato é que a Empiricus resolveu virar corretora – instituição que ela mesma sempre disse que atuava com conflito de interesses. Este é o fato.

Que há conflito de interesses em várias atividades no mercado financeiro, não há dúvidas! Mas há esse mesmo conflito de interesses em diversas outras profissões também, e o que define a seriedade de um trabalho é a conduta de quem o realiza. Ninguém é ladrão simplesmente por existir um conflito de interesse!  É a conduta que transforma um potencial conflito de interesses em um problema ou não.

Olhando para o fato em si – e não o discurso, espero que a Empiricus não faça um material convincente explicando que “a teoria da gravidade não existe” e que investidores comecem a tentar pular a grade de suas sacadas, porque a teoria não supera o fato. Nenhum tipo de estudo científico, nenhuma ideologia política, nada – absolutamente nada –  se contrapõe ao fato concreto.

E, no fato concreto, a Empiricus sempre detonou bancos e corretoras e agora quer se transformar em uma corretora. Independente de qual seja a história a ser contada, esse é o fato concreto. Talvez porque, de tanto produzir relatórios com alarmes sucessivos e com infinitas operações, tenha percebido o quanto de custos operacionais que ela tem gerado para as corretoras – em detrimento dos interesses dos investidores – sem que eles sequer percebam.

Em que pese muitos investidores gostarem da Empiricus – e isso é completamente legítimo, a pergunta que fica é: Empiricus, o conflito de interesse das corretoras acabou? Você se enganou antes?

Conflito de interesses existe, mas o problema não é exatamente este. O problema está na conduta de quem realiza o trabalho. Podem existir corretoras com conduta adequada ou inadequada. Podem existir agentes autônomos com conduta adequada ou inadequada. Podem existir empresas de análise com conduta adequada ou inadequada.

O que me pareceria mais lógico era que a Empiricus criasse um fundo e se propusesse a administrar dinheiro dos investidores. Assim poderia colocar todas as suas brilhantes ideias no fundo e proporcionar uma excelente rentabilidade para todos que forem seus clientes. Por que não esse caminho?

Autor

André Bona

André Bona possui mais de 10 anos de experiência no mercado financeiro, tendo auxiliado milhares de investidores a investir melhor seus recursos e é o criador do Blog de Valor - site de educação financeira independente.

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Comentários

  1. Leila    

    Qual panaca ainda cai no conto do vigario da Empiricus? Pior casa da analises do mundo!

    1. Elen Angela Dutra    

      Leila, muita gente cai! Eu tenho um ainda pequeno canal de educação financeira no youtube e meses atrás publiquei um vídeo sobre a notícia de que a CVM e o Ministério Público estavam investigando a conduta mercadológica da Empiricus. Acabou se tornando o vídeo mais visto do meu canal e tá cheio de comentários de clientes da Empiricus defendendo a empresa e até me ofedendo.

  2. Sandro    

    Excelente análise sobre o caso, Andre. Uma pergunta, qual a influência que o BTG exerce hoje sobre a Empiricus?

    1. André Bona    

      Não faço a mínima ideia. Abs,

  3. Carlos Felipe    

    A sugestão do fundo é excelente. Fim de papo. Quando vi a mensagem da empiricus pensei que fosse brincadeira.

  4. Nei Azambuja    

    Perfeita a sua análise . Ja manifestei ponto de vista semelhante à própria empiricus , tempos atrás.
    Considero sua indicações muito boas. Já ganhei muito dinheiro com elas. São muito competentes, mas o marketing é agressivo e extremamente exagerado.
    Se montarem a corretora, não vou renovar minhas assinaturas, porque obviamente vão criar conflito de interesses.
    Abraços

  5. Danimar    

    Bom dia Andre,

    Excelente artigo sobre esta verdadeira piada que a Empiricus está pensando em realizar. Sou assinante de 1 dos relatórios vitalícios e assinei outro por um tempo, de fato uma das recomendações até chegou numa boa rentabilidade, mas realizei lucro antes de chegar a “brilhante” rentabilidade prometida porque não quis mais arriscar o meu dinheiro nas recomendações deles. Hoje estou investindo sozinho, buscando conhecimento em diversas fontes porque o que a Empiricus faz, realmente é um marketing terrorista, você assina um relatório hoje e amanhã eles já aparecem com outra recomendação imperdível, oportunidade única a qual você só poderá aproveitar se assinar outro produto, desta forma fica fácil ganhar dinheiro, vendendo centenas de relatórios, muitos recomendando as mesmas ações inclusive. Então quero aproveitar o gancho e deixar minha recomendação pra que quem queira assinar algum relatório da Empiricus tenha muito cuidado, e com esta história de virar corretora, o cara que não tiver auto controle vai gastar mais dinheiro do que as rentabilidades recebidas. Portanto o melhor a fazer é buscar conhecimento constantemente para investir melhor.

    Abraço a todos e obrigado ao Andre por compartilhar um pouco de seu conhecimento conosco.

  6. Juvenal    

    Assino vários relatórios da Empiricus há alguns anos e ganho dinheiro com todos eles, com performance muito, mas muito acima do que vejo divulgado por aí de vários fundos de investimento. Obviamente eles fazem RECOMENDAÇÕES cabendo ao assinante decidir se executa ou não. Me pergunto se quem diz que são isso ou aquilo conhece de fato os produtos pagos ou se apenas emitem opinião baseado no que ouviu falar ou por aquela dorzinha de cotovelo pelo sucesso dos caras.

    1. André Bona    

      Olá! Obrigado pela sua opinião. Fico feliz que tenha uma opinião divergente e a manifeste pq assim vc contribui para o debate. Com relação ao artigo, meu ponto refere-se a conflito de interesses. Se a Empiricus sempre bateu em corretoras, porque virar uma delas? Porque não vira então gestora de fundos? Agora, dor de cotovelo eu não tenho não, até porque eu não faço o mesmo que eles fazem, logo eles não concorrem comigo. Um outro ponto é que no passado, mais de uma vez, eles já me consultaram para pagar por publicidade aqui no blog, e eu recusei. Portanto eu teria como ter me “aproveitado” do “sucesso” deles, mas recusei de imediato simplesmente porque o “sucesso” de um produto não significa que ele tenha necessariamente qualidade. Essa é uma falácia chamada “argumentum ad populum”, dê um google aí. E pra finalizar, eu não me lembro de nunca ter me inspirado em conteúdo deles para fazer os meus. Mas eles já se inspiraram nos meus para fazer os deles ou uma coincidência muito grande aconteceu. Veja esse video: https://youtu.be/ZrJJ4kElymM
      Abs,

  7. Antônio    

    Golaço. Parabéns pela análise.

  8. Rodrigo    

    Só assinarem os relatórios e verem a diferença, é fácil falar mal sem recomendar comprar isso ou aquilo , os relatórios tem histórico vejam falam por si só, o objetivo é ganhar dinheiro,no Brasil é sempre feio querer ganhar dinheiro, estou muito contente e se de fato abrirem corretora com transparência dos valores cobrados irei para a corretora deles sim.

  9. Alex    

    Eu tmb não entendo André, eu assino um dos relatórios, e por sinal está me dando um bom resultado (moderado, nada muito além de fundos que já tenho). Eu acharia incrível se eles criassem fundos de investimento, passasem a se preocupar apenas com os resultados, poderiam deixar de lado toda essa parte de marketing, relação com investidores, relatórios, livros, etc. Apesar de ser assinante isso me preocupa muito, pois é sinal que eles não querem um banchmark público sobre seus acertos.

    Pelo preço dos relatórios fica claro que eles ganhariam infinitamente mais criando um fundo. Porque não criam? Talvez pq teriam que reportar a CVM diariamente seus rendimentos (e possivelmente estão com medo disso). Volto a dizer, eu assino um relatório, sei que são bons, eles tem muita capacidade pra fazer oq se propõem: estudar o mercado. Porque deixar isso de lado para montar uma corretora?

  10. Põe na Bolsa    

    Excelente texto e análise… concordo que um limite aceitável seria um fundo de investimento, mais do que isso a Empiricus talvez continue a se queimar, apesar de que sempre terão pessoas dispostas a serem seguidores devotos rsrs.

  11. Will    

    Se eles sao tao bons deveriam montar um fundo!!!
    Ficam falando um monte de coisas, mas ninguem consegue medir o seu historico de performance.
    Vendem dificuldade para trazer solucao.

  12. Leandro Mayrink    

    Eu acompanho a Empiricus já a algum tempo. Nunca vi eles falarem mal de corretoras, apenas dos bancos. Não estou aqui pra defende-los, até por que não boto minha mão no fogo por ninguém ou empresa. Estou apenas relatando os fatos do que leio.

    Realmente o marketing deles é muito agressivo, eu não caio. Tenho 2 assinaturas do que considero ser interessante pra mim e estou tendo bons retornos financeiros com algumas recomendações. Porém já aprendi a filtrar o conteúdo deles.

  13. Julio    

    Ganhei e ainda ganho muito dinheiro com a empiricus ainda bem q vai no marketing pois ele é uma forma de levar você até os melhores relatórios do mercado…e bem triste ver que pessoas como o autor do blogu não enxergue que o marketing é somente um meio de levar as pessoas até ótimos conteúdos. Obs o texto está bem confuso. ABS Julio

    1. André Bona    

      Obrigado pelo seu comentário e contribuição para o debate. Abs,

  14. Fábio Balestro de Bem    

    Quase todo marketing é uma exacerbação da realidade, de qualquer empresa. Ou o papai noel vem de fato entregar uma coca-cola para você?! Sou assinante da Empiricus e votei pela não criação de corretora, pois acho paradoxal a postura, verdade. Mas os caras são bons naquilo que fazem e tô ganhando grana com eles. Se eles têm um produto ótimo, qual o problema de uma propaganda agressiva?! Você é maior, vacinado, esclarecido e tem autodeterminação, certo?! Você ilegítimo/ilícito pretender ganhar dinheiro num país capitalista, sobretudo vendendo um produto de boa qualidade?! Enfim, dois fatos: (1) realmente, o marketing é agressivo; e (2) to ganhando grana con as recomendações. A propósito, a última foi com BRKM5. Obrigado, Empiricus.

    1. André Bona    

      O foco do artigo é o conflito de interesses. E a questão do marketing agressivo gerou processo na CVM. Mas qto a qualidade do material, isso fica realmente por conta de cada investidor fazer sua própria avaliação. Obrigado pela sua contribuição! Abs,

      1. Leo Bevacqua    

        Tb sou assinante da Empiricus e minha opinião é a mesma do Fábio Balestro.

        1. André Bona    

          Ótimo! Coloquem mesmo suas opiniões. Abs,

  15. Leo Bevacqua    

    André Bona, afinal, qual é a casa de recomendações que vc utiliza?!?
    Abraço e acompanho sempre seu canal.

    1. André Bona    

      Tá lá nos serviços recomendados, no alto do Blog. Abs,

  16. Vinicius    

    Apesar do marketing agressivo deles, acho que a maioria das recomendações deles são muito boas, que acompanho desde 2013. Mas não é que eles fazem um texto gigante e alarmista que se deve levar tudo em consideração. Análise crítica acima de tudo.
    Concordo que há um risco de conflito de interesses e também concordo que melhor seria eles lançarem um produto estruturando as estratégias que eles defendem, tanto que a resposta que enviei a eles sobre o assunto está bem em linha com o que você escreveu.
    Não conhecia o seu site, mas vou dar uma olhada com mais calma. Parabéns.

  17. Fabrizio Abbud Tatini    

    Meses atrás pensei em me inscrever na Empiricus depois de ficar em êxtase após receber um material muito bom sobre o Ex-presidente Lula, após o segundo, o terceiro e o quarto material recebido fiquei com muitas suspeitas do seu “mkt terrorista” como você descreveu bem… Então resolvi procurar informações com os próprios clientes da empresa, e realmente, no Reclame Aqui você consegue fazer um Raio X completo da empresa e pude entender de forma clara como ela se comporta.
    Para resumir, acredito que a minha primeira leitura do conteúdo da empresa pode ser compararada com um gringo vendo o o progama do Datena pela primeira vez… que bom que procurei entender mais sobre o assunto e não me envolvi com a empresa.

    Acredito que a Empiricus funcione para alguns, mas tenho certas dúvidas sobre a sua essência em geral.

    Parabéns pelo texto André.

    AB

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