O mercado de ações pode ser mais antigo do que você pode imaginar. E isso não significa que os métodos de análises de décadas atrás foram invalidados. Veja só: mesmo com todos os aparatos tecnológicos que suportam as análises, a teoria de Dow, criada há quase um século, se mantém como alicerce para fazer a análise técnica, avaliar o preço da ação e a filosofia do mercado.

Charles Henry Dow, fundador da Dow Jones & Company, desenvolveu a teoria que leva seu nome. Mas, posteriormente, ela foi aprimorada e organizada por S.A. Nelson, autor de “O ABC da especulação na bolsa”, William Peter Hamilton, Robert Rhea e George Schaefer, visto que não havia um material compilado, mas vários editoriais publicados por Dow no The Wall Street Journal, do qual ele era proprietário e editor.

Por isso, embora atribuída a Charles Dow, a base para o desenvolvimento dessa importante teoria são os escritos de Hamilton, que fundamentaram a publicação do livro “Teoria de Dow”, de Rhea. No seu livro “O Barômetro do Mercado de Ação”, ele buscou explicar detalhadamente o tema.

O conjunto de hipóteses e teoremas que dão forma a esse método de análise são extremamente válidos para os dias atuais e se tornaram axiomas em Wall Street, que têm aplicabilidade para as ações individuais, mas possuem abrangência mais genérica, sendo melhor aplicáveis a grupos de ações ou índices de mercado.

Afinal, o que é a Teoria de Dow?

Ela é, em poucas palavras, uma das principais bases da análise gráfica da movimentação que acontece nos preços das ações. Ela fundamenta a análise técnica, em conjunto com outras avaliações, como:

  • bandas de bollinger, que é a composição de uma linha central que traz a média exponencial dos preços, acompanhada de mais duas linhas (que são as bandas), acima e abaixo, marcando o desvio-padrão das ações analisadas;
  • médias móveis, que são formas de suavizar os dados para tornar o indicador de tendência perceptível;
  • MACD — Média Móvel Convergente/Divergente que mostra a relação entre duas médias móveis;
  • IFR — Índice de Força Relativa, usado para confirmar tendências e identificar pontos de reversão, além de identificar o quanto o mercado está comprado ou vendido.

Essa análise técnica diz respeito à prática de prever as oscilações futuras no preço das ações, baseando-se em aspectos passados. Ao olhar para trás, leva-se em consideração fatores como:

  • padrões gráficos;
  • dados históricos de preços;
  • volume de ações negociadas etc.

Pode-se dizer que, enquanto a análise fundamentalista foca na empresa emissora das ações, buscando referências sobre sua sustentabilidade em balanços, DREs, gestão corporativa etc., a análise técnica olha a ação propriamente dita, e seu comportamento ao longo do tempo.

Quais são os seis fundamentos da teoria de Dow?

Para dar suporte às suas avaliações, a teoria de Dow se alicerça sobre 6 fundamentos. Conheça-os, a seguir:

1. Os índices de preço já englobam todos os descontos

De acordo com esse fundamento, índices de mercado — como Dow Jones e Ibovespa — já são o reflexo dos fatores que afetam a cotação dos preços e, portanto, consideram tudo que tem que ser descontado.

Com a rapidez e dinamicidade do mercado, as notícias que impactam os preços das ações são, de modo instantâneo, incorporadas aos índices, descontando inclusive ocorrências imprevisíveis, como desastres naturais e outras coisas.

Esse fundamento, portanto, diz para nós que não é preciso realizar várias análises paralelas para calcular seu impacto sobre os preços, pois as estimativas do mercado são mais eficientes para isso!

2. O mercado possui três tipos de tendência

Dow analisava, ainda, a existência de vários aumentos sucessivos no preço. Sabe quando as ações vão seguidamente subindo de valor e fazendo picos mais e mais elevados? É exatamente isso que identificava as tendências de alta.

E. ao identificar o contrário — aquelas quedas seguidas de outras quedas —, então se verificava uma tendência de baixa.

Mas por que estamos falando no passado? Esse tipo de definição ainda é usado hoje e, na verdade, é a forma principal de analisar tendências.

Na teoria de Dow, há três tipos de tendências de movimentação nos preços das ações, que variam conforme a sua grandeza, por assim dizer. Imagine os movimentos marítimos e aplique-os às tendências possíveis:

  • uma tendência primária é uma maré, forte, com bastante movimento;
  • uma tendência secundária são ondas, que se formam conforme a maré sobe ou desce;
  • uma tendência terciária é apenas uma marola, que se forma entre as ondas e não tem muita amplitude.

O mar dá sinais de que vai mudar. Quem o conhece sabe quando a maré está subindo ou descendo só observando a areia da praia: as ondas estão alcançando um pedaço maior? Então está subindo. A cada nova onda, o mar está se afastando? Nesse caso, é o movimento de descida da maré.

Mas a subida ou descida do nível do mar depende das fases da lua e muda com poucos dias. No mercado, a onda da tendência primária pode subir, e subir, e subir — por anos seguidos. Por isso ela tem potencial maior de efeitos.

Já a tendência secundária se estende por menos tempo — de três semanas a três meses, por exemplo — e podem ter uma amplitude entre um e dois terços do movimento anterior.

A tendência terciária — como você deve imaginar — é mais curta e mais “tímida”: ela dura menos de três semanas e são pequeninos movimentos observados em torno de uma tendência secundária.

Se você observar um gráfico de, por exemplo, um ano do IBOVESPA, vai perceber as ondas, os picos e as pequenas oscilações, e será fácil identificar cada tipo de tendência.

3. As tendências primárias possuem 3 fases

E, dentro das tendências, há as subdivisões. O terceiro fundamento da teoria de Dow diz que as tendências primárias têm três fases distintas:

A fase da acumulação

Para os investidores bem preparados, o olhar clínico indica nessa fase o momento certo para comprar o ativo, pois o mercado já assimilou os impactos negativos que causaram uma tendência de baixa e está se recuperando, ganhando fôlego para reverter o cenário e entrar em uma tendência de alta.

A fase da participação pública

Sabe aqueles investidores que seguem as tendências? Nessa fase, eles percebem o movimento e começam a comprar o ativo. Como efeito disso, o preço sobe e a tendência se pronuncia mais, deixando as altas mais perceptíveis. Nesse momento, o mercado está assimilando os fatores positivos.

A fase da distribuição

Essa é a terceira fase, quando os ativos que estão se destacando começam a ganhar as manchetes dos jornais e a participação do público, que começou na fase anterior, fica ainda maior.

Sabe aqueles primeiros investidores, que compraram na fase da acumulação? Nesse momento, eles sabem que é hora de colocar o lucro no bolso, vendendo suas posições.

4. Os índices e médias devem se confirmar mutuamente

No mercado de ações, especialmente no americano, há vários índices complementares que tratam do desempenho de vários grupos de empresa. Segundo Dow, esses índices precisam caminhar de acordo com as tendências. Dessa forma, um confirma o outro.

A razão disso é que os índices falam sobre diferentes setores da economia que são impactados por fatores semelhantes e também influenciam uns aos outros para garantir um crescimento sustentável.

Quer um exemplo? Vejamos: o IBOVESPA mostra tendências de alta no movimento dos preços das ações. Já o ICON (Índice de Consumo) dá sinais de tendências de baixa. Comparando-os, você não pode confirmar se uma tendência do setor de consumo está nessa ou naquela tendência.

Sabe o que é mais incrível nisso? A teoria de Dow é de um século atrás! Charles Dow vem de uma época em que a grande maioria das empresas eram indústrias. Mas, ainda hoje, na diversidade de setores e nichos de mercado, comparar dois índices cujas empresas se relacionam de maneira forte continua muito válido.

5. O volume precisa confirmar a tendência

Segundo a teoria de Dow, o volume é um fator secundário, mas ele também pode confirmar as novas tendências, ao mostrar quantas ações foram negociadas. Em uma tendência primária, por exemplo, o volume precisa expandir na mesma direção que ela apresenta.

Na prática, em uma tendência de baixa, o volume também vai decrescendo. Já na de alta, ele cresce continuamente. E, ainda com esse princípio presente em sua teoria, Dow baseava sua estratégia somente nos preços de fechamento.

Hoje, há indicadores que servem para determinar os movimentos do volume propriamente dito e compará-los com as alterações nos volumes dos preços. Esses índices servem para garantir que eles se confirmam e atendem a esse fundamento.

6. Uma tendência ocorre enquanto não houver sinais de reversão

Você lembra das aulas de Física, quando o professor repetia que um corpo em movimento uniforme vai permanecer em movimento até que alguma outra força aja sobre ele?

É algo bem similar a esse princípio. Os investidores se embasam em instrumentos de análise técnica que servem para confirmar se há uma tendência presente nos movimentos ou não. São exemplos desses recursos:

  • os indicadores de análise técnica;
  • os padrões gráficos;
  • os padrões candlesticks.

Esse é um princípio bem complexo da teoria de Dow e é preciso se dedicar a ele, para dominar seus recursos e conseguir identificar a presença das forças que provocam a reversão de uma tendência. Os investidores mais experientes e estudiosos buscam dominá-los para facilitar suas escolhas ainda na fase de acumulação de um ativo.

Quais as principais críticas à teoria?

Nada escapa impune às críticas, não é mesmo. Até porque nenhuma técnica é integralmente aplicável ou 100% infalível. Assim, a teoria de Dow também sofre com isso, afinal, são 100 anos de utilização.

Mesmo com seus vários princípios, ela perde entre 20% a 25% de um movimento antes de perceber os sinais de tendência. Para muitos traders, esse é um tempo muito grande e que prejudica o acompanhamento dos movimentos. O mercado de ações é imensamente veloz, e perder ¼ do tempo de observação gera uma escolha, em vários casos, tardia demais.

Quando o preço sobe acima do pico registrado por último, isso indica que um novo pico está sendo formado — e esse é um sinal de compra. É justamente nesse momento que os sistemas técnicos feitos para seguir tendências apontam as compras e dão a largada para o movimento.

Mas Dow nunca teve a intenção de prever tendências com suas teorias. Na verdade, ele buscava captar uma parcela grande dos movimentos mais importantes do mercado, para confirmar as tendências.

E, ainda que haja esse tipo de crítica, ninguém pode negar a importância de entender os fundamentos da teoria de Dow para dominar os instrumentos de análise técnica.

Como dissemos, nenhum meio de ganhar no jogo acirrado do mercado financeiro é infalível — Hamilton e Dow já sabiam disso. Segundo eles, a teoria compila princípios que servem para ajudar as análises de mercado, pois ela ajuda a “limpar a visão” da parte emocional das operações.

Isso porque há uma tendência de os investidores se deixarem iludir pelos próprios desejos. Eles analisam o mercado já tendo em mente um objetivo e procuram sinais de que estão certos — é uma visão, no mínimo, tendenciosa.

E a teoria busca livrá-los disso, dando margens mais imparciais de avaliação, ao oferecer métodos de identificação muito claros e objetivos das tendências primárias. Assim, as decisões ficam menos ambíguas.

E um trader que não possa utilizar as ferramentas da teoria para embasar suas negociações de curto prazo consegue agregar valor às suas percepções, pois vai poder olhar para o horizonte de tempo e terá mais clareza para identificar as tendências primárias.

O intraday — que são as movimentações dentro do horário comercial das bolsas — e até os movimentos secundários podem ser alvos de manipulação. Mas a tendência principal passa incólume por isso.

Por conta disso, a teoria de Dow visou olhar para os grandes movimentos mesmos. Ela não busca avaliar as flutuações diárias com seus ruídos, nem estão preocupadas em conhecer topos e fundos exatos.

E, mesmo com Hamilton e Dow recomendando estudar atentamente os mercados em uma base diária, eles também focaram em minimizar os efeitos dos movimentos aleatórios. O grande alvo da teoria são as tendências primárias. Isso porque é fácil se deixar levar pelo momento e suas oscilações malucas.

Como funciona a movimentação dos preços de ações?

Segundo Dow e Hamilton, há três tipos de movimentos de preços para as médias industriais e ferroviárias do Dow Jones.

1. Movimentos Principais

Esses são aqueles que representam as tendências implícitas do mercado e duram entre meses e anos. São aqueles a quem nos referimos normalmente como touro e urso:

  • touro representa a tendência de alta na bolsa — ou o bullish. Imagine um touro atacando: os seus chifres fazem um movimento de baixo para cima. Essa é a analogia do nome.
  • já o urso é o contrário, representando a tendência de baixa (bearish), pois as patadas fortes do ataque dele vêm de cima para baixo.

Depois de identificar a tendência primária, assim como na Física, ela vai prevalecer até que seja provado o contrário.

Após estudar médias, Hamilton obteve conclusões gerais para o cumprimento e a duração das tendências, mas acreditava que elas eram indetermináveis, por isso sempre falou contra a possibilidade de aplicá-las como se fossem regras, para determinar uma previsão.

Não dá para saber quando a tendência primária vai acabar, mesmo se você olhar muito atentamente para os preços e os tempos. Não adianta querer usar a Teoria de Dow como um uma bola de cristal para adivinhar o que os nossos olhos não alcançam.

Assim, com seus fundamentos e diretrizes, ela ajuda a investir de forma consciente, de olho na tendência primária, sem se perder pelo caminho, tentando prever seu tamanho e duração. Os pontos de ruptura dos grandes movimentos dela eram o foco de Dow e Hamilton, para identificar a tendência primária e surfar na onda dela.

2. Movimentos Secundários

O segundo tipo de movimento é o secundário, que se apresenta contrário à tendência primária e têm natureza reativa. Eles podem ser considerados:

  • uma correção, no mercado de touro;
  • uma reação de retomada, no mercado de urso.

Um movimento secundário pode ser identificado do ponto mais baixo ao mais alto, caindo por períodos regulares, mas definidos. Se eles são persistentes e contrários à tendência, você pode saber que já não são flutuações diárias.

O olhar atento de Hamilton percebeu que vários movimentos secundários tinham características comuns nos mercados de touro e urso. Elas não são necessariamente regras; estão mais para orientações que podem subsidiar outras técnicas de análise. Veja algumas dessas características:

  • os movimentos secundários reconstituem cerca de 1/3 a 2/3 do movimento principal. O valor típico é 50%;
  • eles tendem a ser mais rápidos e mais intensos que o movimento principal anterior a eles, avançando mais e durando menos;
  • o final do movimento secundário é caracterizado, em geral, por um período de apatia, antes de percebermos a reviravolta. Essa apatia é percebida pelo pouco movimento nos preços, uma queda no volume ou as duas coisas em conjunto;
  • as baixas podem ser acompanhadas por um dia de alto volume.

Segundo Hamilton, os movimentos secundários são um fenômeno necessário para minimizar a especulação excessiva. As correções e os movimentos contrários servem para manter os especuladores controlados e diminuem a previsibilidade dos nos movimentos do mercado.

Eles são muito complexos e podem ser enganosos. Para identificá-los sem erros, é preciso muito estudo e uma análise extremamente cautelosa. Um exemplo de erro comum é aquele em que os investidores confundem o movimento secundário com o início de uma tendência primária nova.

3. Flutuações diárias

As flutuações diárias podem realmente ser importantes quando observadas de forma agrupada. Mas há muito perigo quando você olha para uma delas individualmente. Os movimentos do dia a dia se caracterizam por serem muito aleatórios e, na melhor das hipóteses, o valor de previsão das flutuações diárias é limitado.

Olhar de forma excessiva para a flutuação diária pode levar o investidor a agir baseado em previsões erradas, e isso aumenta muito seus riscos de perda. Se ele fica preso ao movimento de um tempo curto — como um ou dois dias — pode tomar decisões precipitadamente, baseando-se na emoção (lembra que falamos que a Teoria de Dow procura neutralizar essa questão?).

Assim, olhar para o todo e não esquecer dessa visão é tarefa básica para avaliar as variações diárias sem se deixar enganar.

É como se você comparasse o mercado com as peças de um quebra-cabeça. Olhando apenas uma você pode ter a ilusão de que está vendo outra coisa. Você só consegue completar o jogo se observar todas em conjunto.

As flutuações diárias são como essas peças: elas são importantes — e até fundamentais — para compor o cenário maior, mas precisam ser vistas em conjunto com outros dias para que você possa prever o que virá. Analisando-as de forma combinada, há um padrão que subsidia as decisões. Isoladamente, chances máximas de erro.

E se você pensa que Dow e Hamilton ignoraram as variações diárias de preço, está bem enganado! Esse estudo diário da movimentação do mercado é valioso, mas precisa, sem sombra de dúvida, ser conectado a um cenário maior.

Por mais que pareça que as oscilações diárias digam alguma coisa, elas oferecem um volume ínfimo de informações se você pega um intervalo de um, dois ou três dias. Assim como nas análises estatísticas, as séries servem para estruturar os dados no tempo e novo volume e formar um quadro que diga, realmente, alguma coisa clara e segura.

Conclusão

Ao ler mais sobre a Teoria de Dow, cruzá-la com outras ferramentas de análise técnica e observar as informações do mercado, você vai ver um novo horizonte se abrir. Claro, não é de imediato que se toma conhecimento de um tema tão complexo como a bolsa de valores.

Mas o estudo constante, a leitura de artigos e a busca por conteúdo de referência são passos fundamentais para você saber cada vez mais a respeito do mercado financeiro. E, mesmo que delegue os cuidados com suas aplicações a um consultor, é seu papel saber onde, por que e como seu dinheiro está sendo investido, para ter uma visão crítica dessas escolhas.

Portanto, não esqueça: receba conteúdo de valor diretamente em seu e-mail, assinando nossa Newsletter e aprendendo cada vez mais sobre esse assunto tão importante!

Autor

Equipe André Bona

Nosso site é um site de educação financeira independente com a missão de auxiliar pessoas e famílias a melhor compreender o mercado financeiro e os seus produtos. Assine nossa newsletter!

shadow

Posts relacionados

Comentários

  1. Rodrigo Tres    

    Legal Bona!!! Teoria precisa até demais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *