Respondendo ao Leitor pelo Atraso

O que escrever quando não se consegue escrever? Peço mil perdões pelo atraso da coluna esta semana. Não há nada que justifique isso. Eu juro que comecei a coluna algumas vezes, mas não consegui terminar nenhuma.

Eu confesso: sou naturalmente atrapalhado. Pois estou mais atrapalhado do que o normal.  Para piorar, a semana foi agitada: o automóvel quebrou; e hoje é aniversário da minha esposa.Hoje, pois são exatamente meia-noite quando termino este parágrafo; o primeiro parágrafo! Falta ainda todo o resto…

Sinceridade é Fundamental

Sabem aqueles alunos obrigados a escrever uma redação de mil palavras e que ficam contando uma a uma para ver se está chegando no mínimo? Não espalhem, mas estou me sentindo igual: “uma, duas, três, …, quarenta e nove, …, oitenta e três, …, cem. OK. Faltam novecentas!” Não riam, por favor. Estou sendo sincero aqui! O mesmo sujeito que escreveu sobre a importância da conversa, sobre a natureza da relação escritor-leitor, agora, está sem palavras.

Normalmente, eu simplesmente sento, e a coluna escreve-se praticamente sozinha. Há semanas que saem duas, ou que eu reescrevo toda uma nova em cima do laço. É uma maravilha.

Porém, há dessas em que simplesmente não sai coisa alguma. Nessas horas, eu sou capaz de entender jogador de futebol que entra em campo e parece incapaz de acertar passe de dois metros. Já é SEXTA-FEIRA, e o texto de TERÇA está no terceiro parágrafo.

Accountability em Casa

Minha esposa me deu um puxão-de-orelha: “Como não entregaste a coluna ainda?! É trabalho!” Eu sei que é trabalho! Mas ficar me lembrando disse não ajuda muito. Quiçá, até atrapalhe. Eu devo ter algum gene de artista, só me faltando o talento.

Assuntos para serem tratados sobram, é verdade: saiu uma MP da liberdade econômica, por exemplo; a crise na Venezuela continua (mas essa já foi tratada aqui); o Dia do Trabalho; etc. Está faltando-me INSPIRAÇÃO. Porém, de novo, isso não é desculpa.

Quem Sabe Faz a Hora

Salvo melhor juízo, um escritor muito, mais muito melhor do que eu, Jorge Luís Borges [se não tiver sido ele, por favor, corrijam-me!], disse que um escritor não pode esperar pela inspiração para escrever. Precisa sentar e escrever. O texto será ruim, tu sabes que o texto está ruim, mas isso não importa. Segue escrevendo lixo.

O importante é não parar. Esta semana cometi o erro de parar e o erro de demorar para recomeçar.

Lição da Semana

Amigos, aprendam com esse meu erro. Se precisam escrever, escrevam. Nalgum momento, do esforço, a inspiração vem e compensa todo o trabalho despendido.

Se está bom ou ruim, deixem para julgar depois, mas façam o que deve ser feito. Caso contrário, vão acabar contando palavras [quatrocentas!] de madrugada com quatro dias de atraso.

O ótimo não pode ser inimigo do bom”, dizem. Pois o bom não pode tampouco ser inimigo do razoável; nem o razoável do aceitável; nem o aceitável do “pelo menos, cumpriu-se os requisitos formais”…

Entre Reforma e Reeleição

… E nem uma eleição pode ser inimiga do Brasil.[Aí, já sei sobre o que escrever!Porém, parei. Eu não aprendo.São uma da manhã, e já estou batendo cabeça aqui. Ao menos, cheguei até a metade do mínimo, (quinhentas!) sabendo sobre o que escrever. Amanhã, com certeza, termino. Será? Oxalá…]

Ausência de Accountability

Já é tarde de “amanhã”, e só agora às 17h que sentei para recomeçar. O tema da coluna desta semana só apareceu no feriado de quarta-feira. Infelizmente, no Brasil, o eleitor não tem muito poder para exercer accountability sobre os membros do Legislativo. Até a inexistência de uma palavra em português para descrever accountabilityé um sinal do problema.

Accountability é a capacidade de sofrer pela responsabilidade de um cargo ou um ato: se faz besteira e paga pelo erro; logo, é accountable.Eu tenho accountability. Se não cumpro com o combinado com o Portal André Bona, eu não recebo; podendo perder este espaço, inclusive. Já nossos deputados, eles não têm muita accountability.É por isso que alguém pode dizer ou fazer uma besteira sem tamanho e sair eleitoralmente ileso, como poder ocorrer, por exemplo, com o Paulinho da Força.

Líder Nanico

Para quem esqueceu ou não sabe, o deputado federal pelo Solidariedade declarou o seguinte no primeiro de maio: “Tenho atuado muito junto com os partidos de centro para que a gente possa ganhar a opinião daquele povo. Se fizermos uma reforma que dê R$ 1 trilhão em dez anos, significa que daríamos em três anos ao Bolsonaro R$ 330 bilhões. Ou seja, isso garante a reeleição dele. Esse é o discurso com muitos partidos que não têm interesse na eleição do Bolsonaro. É possível trazer esses partidos para uma posição de desidratar a reforma.

Noutras palavras, o nobre político acredita que a reforma da Previdência seja menos relevante que a próxima eleição. Simplificando, ele prefere ser governo de um país quebrado a ser oposição de um país com as contas em dia. Ilustrando, para descer ao nível intelectual do douto líder sindical, Paulinho da Força prefere ser “cabeça de sardinha” a ser “c* de baleia”.

Ao invés de querer o melhor para o Brasil, Paulinho da Força quer impedir que o país se desenvolva para que continuemos do tamanho dele – minúsculos.Parece “caranguejo gaúcho” – o qual não deixa os outros saírem do cesto por recalque, já que ele não consegue.É isso que temos por liderança sindical no Brasil?

Pobres trabalhadores! [oitocentas palavras] Se a mesma lógica é aplicada ao sindicalismo, Paulinho da Força e congêneres defenderão sempre algo que lhes mantenham no poder a beneficiar a quem eles supostamente representam. Enquanto isso, ficam usando de retórica barata para justificar suas ações.

Necessidade de Mudança: Accountability

Pelo menos, desta vez, ele foi sincero – e sinceridade é fundamental; revelando a mais pura essência de sua compreensão da política. Isso é o Centrão. Infelizmente, nós temos líderes demais com esse tipo de mentalidade. A única maneira de mudar essa perversão é através de accountability. Para tanto, é preciso reconhecer que a política brasileira não tem isso.

É uma situação complexa, pois quem deve fazer a reforma são os próprios beneficiários da ausência de accountability. É necessário paciência, negociação, pressão, e conversa. É preciso apontar quem age em prejuízo da nossa sociedade e por quê, e fazê-los responder por isso.

É o que estou fazendo aqui. Não é nada, mas é alguma coisa. Toda mudança é pessoal, afinal de contas.

No mínimo, este texto é o princípio de uma conversa, e como disse em coluna anterior, conversa é a base para transformações.Pois sinceros e trabalhando, sigamos.É assim que as coisas mudam: uma conversa; uma pessoa por vez. Aprendamos com os erros, nossos e dos outros, e sejamos, nós mesmos, paradigmas de accountability.

[Fechou mil palavras? Haha! Fechou. Consegui!]

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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