A mudança de uma letra numa única palavra pode ser algo fascinante; capaz de revelar muito sobre o nosso atual estado-de-coisas. Através da mudança de uma letra numa única palavra é possível perceber a diferença entre liberdade e opressão, democracia e autoritarismo, progressismo e senso comum, autoridade e força, etc.

Uma simples alteração na grafia de um substantivo próprio é responsável pela distinção na forma como esse nome é escrito no idioma português e na língua inglesa. O Brasil já foi Brazil.

Tal diferença pode ajudar a ilustrar as maneiras antagônicas de como ambos os vernáculos evoluíram e se desenvolveram a partir do século XX. Esse mesmo singelo exemplo pode demonstrar por que isso é relevante – e é muito relevante! Como é de conhecimento público e notório, em inglês, o nome do nosso país é escrito com ‘z’ – ‘Brazil’; já em português, o escrevemos com ‘s’ – ‘Brasil’. No entanto, isso nem sempre foi assim.

Foi apenas após uma reforma ortográfica aprovada e implementada na década de 1930 que os brasileiros passamos a escrever o nome do país e os demais substantivos desse derivados – por exemplo, “brasileiro” – com ‘s’. Até então, a grafia corrente e presente nos documentos oficiais era com ‘z’.

Antes da reforma, escrevíamos “Brazil”, tal como se faz até hoje em inglês. Os anglófonos simplesmente decidiram não se importar com a nossa reforma e seguiram escrevendo como estavam acostumados. Portanto, a grafia originariamente consagrada do nome de nossa pátria segue preservada no idioma de Shakespeare.

Língua Inglesa: Bagunça Ordenada

Arrogância? Nem tanto. Algumas pessoas escrevem “Brasil”, com ‘s’, em inglês. Ninguém é forçado a escrever com ‘z’ – é apenas o mais comum, e a forma utilizada em documentos oficiais. O fato é que não há, em inglês, uma norma legal que determine suas regras gramaticais e ortográficas.

A língua portuguesa já foi assim. Por séculos, desde o seu surgimento, as regras ortográficas e gramaticais do português funcionavam como até hoje funcionam as do idioma inglês: uma enorme bagunça, livre e organizada, desenvolvendo-se organicamente através do uso pelas pessoas para comunicação.

No inglês, apesar de o que é “certo” ou “errado”, “baixo” ou “erudito”, “apropriado” e “inapropriado”, ser bastante aberto a discussões, há um senso comum prevalecente sobre as respostas. Afinal, nas comunidades de língua inglesa, todo mundo aprende gramática e ortografias similares nas escolas – ainda que havendo diferenças regionais.

No entanto, essas respostas podem ser, e comumente são, tanto questionadas e afrontadas, quanto justificadas e protegidas. O inglês preserva uma unidade e tornou-se o idioma global, mesmo sem uma lei que afirme: “a língua inglesa é assim.”

Língua Portuguesa: Imposição Totalitária

O português não é mais assim. O idioma de Camões, diferentemente de como o era no tempo do épico poeta lusitano, tem forma imposta legalmente, e isso tem relação com a mudança do substantivo pátrio de “Brazil” para “Brasil” – a qual, oficialmente, ao menos por aqui, ocorreu no ano de 1931. Nesse ano, o Brasil finalmente concordou em implementar reforma similar a realizada por Portugal em 1916.

Golpe e Reforma: Progressivismo Político e Linguístico

A reforma ortográfica lusitana fora imposta pelo movimento republicano que colocara um fim, cinco anos antes, no reino de 800 anos. A reforma no idioma era parte dos objetivos daquele movimento de então. Os republicanos portugueses inspiravam-se na Revolução Francesa de 1789, entendendo-se iluministas e anti-monarquistas.

Eles também eram positivistas e anti-democráticos. Eles queriam, e tomaram medidas concretas para tal, superar e modificar tudo o que vinha do passado – desde a ortografia à bandeira nacional.

O mais surpreendente disso tudo é o fato de o Brasil ter levado 15 anos para acompanhar a reforma ortográfica portuguesa. Afinal de contas, o golpe republicano do Brasil ocorreu em 1889, sendo antecessor ao de Portugal.

Ademais, da mesma forma que entre os aderentes do movimento português, os republicamos brasileiros eram positivistas e iluministas. Por exemplo, o lema de nossa república, Ordem e Progresso, é inegavelmente positivista. Baseia-se numa frase de Augusto Comte, o criador do Positivismo: “o Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim.”

No entanto, nem todo os republicanos brasileiros eram progressistas, o que acabou contendo um pouco os extremistas. A tentativa de instituir uma versão brasileira, verde e amarela, da bandeira americana, por exemplo, durou não mais do que uns poucos dias.

Adotou-se um novo hino nacional, relegando-se o anterior à “Hino da Independência”; porém, a música do hino atual foi composta para a coroação de Dom Pedro II, o imperador deposto – a ironia! Ademais, a moeda nacional e o tratamento dado ao idioma não foram alterados.

Estado Novo, Língua Nova, Nome Novo

Isso muda a partir de 1930. Houve um novo golpe de Estado, e o progressismo positivista finalmente passou a ter vantagem no jogo político brasileiro. Com a assunção de Getúlio Vargas à presidência, uma ditadura fora instaurada a nível nacional, e, com isso, escancarou-se as portas para que houvesse, dentre outras coisas, uma reforma ortográfica no Brasil equivalente à portuguesa.

Assim, já no ano seguinte, o “Estado Novo” – como o regime varguista ficou conhecido, deu ao Brasil um nome novo como o regime que promovia; trocando o ‘z’ pelo ‘s’.  Juntamente com o ‘s’, vieram: medidas de controle social; censura; prisões arbitrárias; proibição de símbolos estaduais; vedação de qualquer uso de idiomas estrangeiros, tais como alemão, italiano, e japonês; perseguições políticas; campos de concentração; etc.

Desde a reforma de Vargas, nossa iluminada classe de gramáticos e lingüistas já alterou as regras de ortografia outras três vezes – a última, em 2009; há apenas 10 anos. Eles são tão esclarecidos que se mostram incapazes de aceitar o trabalho dos outros, os quais se também se achavam superiores tanto àqueles que os antecederam quanto aos seus contemporâneos.

É de se esperar que haja outra mudança dentro dos próximos trinta a cinqüenta anos, quando a próxima leva de iluminados tentará conduzir o português à perfeição cuja existência se limita às suas mentes elevadíssimas.

Conclusão

Enquanto o português é rigidamente controlado por legislações e políticas públicas típicas do fascismo do “Estado Novo”, a língua inglesa segue sendo uma Babel inteligível, com as pessoas usando-a democrática e livremente como acham mais adequado, mas ainda respeitando e preservando um núcleo comum e um padrão de excelência – não pela força, mas por autoridade.

Quanto mais eu penso nos motivos pelos quais o nome do Brasil correntemente se escreve com ‘s’ ao invés de ‘z’, mais agradecido fico pelo fato de a antiga grafia permanecer em voga – ao menos, entre os anglófonos.

Quiçá, poderíamos aproveitar que ainda haja quem escreva “Brazil” como mote pare repensar, não apenas nossa abordagem para com a língua portuguesa, mas quanto a que tipo de sociedade desejamos ser: se uma sociedade livre, democrática e opulenta, como o idioma lusitano outrora foi; ou uma sociedade iluminista, progressista, e opressora, como a “última flor do Lácio, inculta e bela” – nas imortais palavras de Olavo Bilac – atualmente é.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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