Era Páscoa, e estava disposto a escrever sobre religião. O texto saiu diferente. Dizem que religião não se discute, mas não foi por isso. Talvez não se deva discutir sobre religião, mas com certeza deve-se conversar sobre o tema. O texto saiu diferente porque resolvi tentar explicar o que é conversa e por que este é um espaço para se dialogar – ainda que apenas eu me manifeste.

Diálogo: Conversa e Conversão

Resolvi deixar religião para uma próxima oportunidade. Deve-se conversar sobre religião e sobre qualquer outro tema que se queira. Afinal, como haver “conversão” de outra forma? Conversão, por favor, é uma palavra cujo significado é muito mais amplo do que o meramente religioso. Aplica-se a qualquer assunto sobre o qual se conversa.

Conversão é “virar junto”. O prefixo “con-” implica em “companhia”. Para haver conversão, portanto, é preciso que haja duas pessoas. Convergimos quando viramos juntos para o mesmo lado. Conversão ocorre através de “conversa”.

Conversar é “pensar junto”, “mudar junto”. “Versar” tem o sentido de “ponderar”, mas vem do latim “versare” que significa “mudar”. Portanto, “conversar” trata-se de um transformativo exercício de ponderação conjunta. Essa transformação ocorre pela conversão mútua dos participantes do diálogo (palavra de origem grega, sinônimo de “conversa”).

Conversa: Experiência e Mudança

Conversa-se, pois, para mudar a si mesmo. Só há conversa e conversão quando se está aberto a mudanças; quando se está disposto a “virar junto” com o outro para o mesmo lado. Quem diz que algo não se discute é porque não quer correr o risco de mudar de idéia. Esse medo, eu não tenho.

A possibilidade de mudar não é algo que me assuste. Contudo, é necessário ressaltar que nos tornarmos iguais uns aos outros não seria uma consequência necessária de uma conversão. É possível “mudar junto” e continuar diferente. A experiência segue sendo individual; e as consequências, também.

Linguagem e o Paradoxo da Conversa

Diálogos serão sempre algo mais que meras trocas de palavras. Qualquer conversa só é possível quando se compartilha de uma linguagem comum. Caso contrário, trava-se um diálogo de loucos. O problema é que uma linguagem comum só se estabelece através do diálogo e da conversa, os quais dependem da linguagem comum para acontecer. Como sair desse paradoxo?

A partir de um interesse mútuo em entender o outro e mudar a si mesmo, a linguagem comum é desenvolvida pelo próprio ato de conversar. Esse desejo de entender o outro é a chave para solucionar o paradoxo e é mais relevante que a vontade de se fazer entender. Sem esse desejo compartilhado, não há conversa.

Conversa entre Escritor e Leitor

Aqui, há um problema; ao menos, aparentemente. Eu escrevo. Não estou em contato direto com o leitor. Como disse, neste espaço, só eu falo. Nesse caso, não seria mais importante para mim fazer-me entender? Ainda assim, não é.

Eu escrevo para dialogar com o leitor e mudar a mim mesmo, porém a tarefa de entender é primordialmente do leitor. O leitor é fundamental na tarefa de ajudar o escritor a fazer-se entender.

Agora, o primeiro leitor do que escrevo sou eu mesmo; pelo que eu me esforço para entender o que eu escrevo. Escrever, pois, não é um monólogo, mas um diálogo em que uma pessoa exerce dois papéis diferentes. De aí que vem o ditado “quem escreve, lê duas vezes.”

O texto não se encerra nesse diálogo do autor-escritor com o autor-leitor. Quando publicado, a opinião do autor-leitor sobre o texto torna-se apenas uma a mais entre tantas. Cada leitor terá sua própria interpretação do texto.

Ler, pois, é um ato de apropriação. Ao lermos, tornamo-nos co-autores do texto lido. Se quem escreve também lê; quem lê também escreve. O mesmo fenômeno acontece também para quem ouve. Ouvir é igualmente um ato de apropriação. Quem ouve torna-se co-autor daquilo que é falado.

Não temos controle sobre aquilo que outra pessoa vai entender; ainda mais que entre os interlocutores a mensagem pode sofrer alterações. Precisamos da ajuda uns dos outros para tornamo-nos melhores escritores, falantes, leitores, e ouvintes, e para corrigir eventuais mal-entendidos decorrentes de problemas formais na mensagem. Isso se faz através da conversa e do diálogo, na busca por conversão.

Eu e Nós: Conversa entre Câmaras-de-Eco

Escrever e falar são formas de se compartilhar experiências. Ao falar, eu me abro, revelando-me aos interlocutores. Portanto, falar é sempre um falar-de-si, mesmo quando o assunto é outro. Agora, ouvir e ler também é um ouvir-de-si. Afinal, ouvir e ler são atos de apropriação; de pegar para si; de tornar seu.

Outrossim, estamos limitados às nossas próprias experiências e perspectivas. Nós somos peremptoriamente separados uns dos outros. Nós não temos acesso ao interlocutor, mas apenas a nós mesmos. Logo, quando nos expressamos, nós nos abrimos a alguém incapaz de ter acesso a alguém que não a ele mesmo. Jamais lemos ou ouvimos o outro, mas sempre a nós mesmos.

Continuamos, pois, no paradoxo inicial. Afinal, é possível sair dessa “câmara de eco” da nossa individualidade? Sim, é; tanto que acontece. Por algum mistério, ao interagirmos uns com outros, nessa mútua abertura, nós somos capazes de convertermo-nos.

Toda conversa é, de fato, uma interação entre dois diálogos individuais. Em cada diálogo, cada indivíduo exerce dois papéis – o seu, e o do outro. Ao dialogar, tentamos ser o outro em conversa conosco. Não há outro jeito. Conversar é imitar o outro; fazer de cada “eu” um “nós”.

A “câmara de eco” é superada através da interação com os outros, a qual revela uma Realidade comum. É essa Realidade compartilhada que nos permite: imitarmos uns aos outros; julgarmos a imitação um do outro; considerarmos a verdade uns dos outros; e colocá-las à prova contra as nossas em relação à Verdade comum.

Conversa e Amizade: Formando Comunidades

O paradoxo da conversa é resolvido através das constantes tentativas de formação e conservação de comunidades por conversão. Comunidade é o resultado da conversão pelo reconhecimento mútuo da realidade compartilhada por pessoas absolutamente distintas umas das outras. Com o diálogo, fazemos amigos.

O ser humano só evolui e amadurece em comunidade com os outros. Na interação social, política, econômica, religiosa etc., conseguimos ir além de nós, tornamo-nos algo maior que nós, aprendemos e desenvolvemo-nos como indivíduos e como comunidade.

Conversa: Conversão e Aprendizado

Em tudo o que falamos, há coisas certas e coisas erradas. Porém, há um limite na nossa capacidade de distinguir o certo do errado naquilo que se diz. Caso contrário, diríamos sempre a verdade; jamais, opiniões.

Expressa-se opiniões na busca pela verdade; para que alguém possa apontar os possíveis erros. É necessário o auxílio de outro para que mudemos de perspectiva e depuremos melhor aquilo que é falso daquilo que é verdadeiro na nossa opinião.

Para mudar de perspectiva, é preciso ir na direção do ponto-de-vista do outro, identificando e comparando aquilo que temos de comum e de diferente, e como isso me mostra coisas que não tinha percebido. Para aprender, desenvolver-se, e amadurecer-se é necessário conversão.

Conversa e Responsabilidade: Amizade e Verdade

Portanto, não só se pode, como se deve discutir tudo, inclusive religião. Deve-se continuar em diálogo, conversando e desenvolvendo uma linguagem comum, buscando aprimorar a conversão e fortalecer a comunidade – ainda que, ao final, ninguém mude de opinião.

O resultado será um maior auto-conhecimento e uma melhor compreensão tanto da nossa própria opinião quanto da opinião do outro. O diálogo, com a conversão, torna-nos melhores do que éramos antes da experiência – individual e comunitariamente.

Eu, aqui, me expresso e me abro ao leitor na esperança de que possamos, na interação, tornarmo-nos amigos. Para tanto, é preciso que o leitor esteja disposto a fazer o mesmo.

O leitor tem um compromisso de abrir-se ao escritor, de tentar alcançá-lo, e um compromisso com a Verdade compartilhada por ambos. A base da comunidade está na amizade entre os participantes da conversa e na busca comum pela Verdade. As responsabilidades do escritor e do leitor são idênticas.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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