Semana passada, Eduardo Bolsonaro afirmou sentir vergonha de ser brasileiro, referindo-se ao fato de haver compatriotas vivendo ilegalmente noutros países – mais especificadamente nos Estados Unidos. No mês passado, o ministro da Educação, brasileiro por opção, já que colombiano de nascimento, e que saudara os estudantes brasileiros com o bordão “Brasil acima de tudo”, afirmara que “brasileiro viajando é um canibal; rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertida na escola”.

As manifestações de Eduardo Bolsonaro e do ministro Vélez foram infelizes. A fala do Vélez, quem já se retratou, é até compreensível; a do Eduardo Bolsonaro, não.

Brasil e o Princípio da Reciprocidade

O Vélez errou em atribuir aquelas atitudes aos brasileiros, e falou de pecados menores como se fossem o suprassumo da incivilidade. O Eduardo Bolsonaro faz uma comparação absurda e usou um exemplo irrelevante para o tema.

Não faz sentido algum ao Brasil adotar o princípio de reciprocidade para concessão de vistos. Aplicar o princípio da reciprocidade é uma punição duplamente equivocada, pois pune um estrangeiro que não tem nada que ver com a regra de vistos do seu próprio país, dificultando-o ou impedindo-o que venha ao Brasil, e pune os brasileiros, que deixam de: arrecadar com o dinheiro que o estrangeiro viria gastar aqui; se relacionar com alguém com experiência diferente da nossa; fazer propaganda do país para que outros estrangeiros venham; etc.

Era só o que o Eduardo precisava dizer.

Deixar de aplicar o princípio da reciprocidade para vistos não tem nada que ver com imigração ilegal; e o problema de imigração ilegal fala muito mais sobre o estado-de-coisas no Brasil do que sobre os brasileiros que se mudam para o exterior. Há muito mais causas para sentir-se vergonha dos motivos pelos quais brasileiros preferem abandonar tudo o que conhecem e que, por ventura, tenham, para arriscar viver ilegalmente no exterior – em locais com costumes e idioma completamente diferentes do seu. Problemas esses que levaram à eleição do pai do próprio Eduardo.

Se há um princípio de reciprocidade que o Brasil deve adotar é fazer com que a vida do brasileiro aqui seja tão boa quanto ao do brasileiro que vive no exterior. A diáspora de brasileiros ilegais se resolveria imediatamente.

As dúvidas, porém, que esses exemplos geram são as seguintes: como é que podem duas importantes figuras nacionais, manifestadamente patriotas, afirmar publicamente terem vergonha de seus concidadãos? De onde vem esse sentimento? Como podemos resolver isso?

Há “dois Brasil” no Brasil

Essa vergonha é menos incomum do que se poderia imaginar. Para entender, é preciso ter noção de haver dois “Brasil” antagônicos e complementares. Coexistem o Brasil “anárquico” e o “control-freak”; o “igualitário” e o “hierárquico”; o “hedonista” e o “moralista”; o “localista” e o “nacionalista”; o “livre” e o “burocrático”, o “diversificado” e o “comum”, etc. Nada disso é necessariamente ruim.

Em ambos “Brasil” há elementos negativos e positivos. Os pontos positivos de cada um devem ser encontrados, enaltecidos, e estimulados; até para que os elementos negativos não sejam dominantes.

O problema é que os dois Brasil têm dificuldade de se entender, o que pode acabar gerando um sentimento de vergonha de um pelo outro. Compare-se, por exemplo, a declaração do ministro Vélez com esta citação de José de Alencar na obra Cinco Minutos: “Sou o homem menos pontual que há neste mundo; entre os meus imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade, essa virtude dos reis e esse mau costume dos ingleses.”

Cada sociedade tem sua história, e, desde os primórdios do Brasil, essa divisão aparece. Os dois Brasil desenvolvem-se paralelamente pelo contraste de um estado cada vez presente e fortemente atuante no litoral e um processo de interiorização anárquico.

O governo, cuja criação é anterior à formação do povo brasileiro, se interioriza depois – a reboque da sociedade civil.Ademais, a influência da Igreja Católica, e a noção de ordem e moralidade que fundamentam o catolicismo, são extremamente relevantes na formação do Brasil.

A história brasileira

Contudo, a história brasileira tampouco pode ser separada do “sexo”. Os portugueses não tinham gente para ocupar o território, então eles fizeram pessoas. Não fomos populados pelos portugueses, mas copulados pelos portugueses!

Essas cópulas não obedeceram as regras vigentes na Europa da época e envolveram índios, africanos, e outros europeus. Essa “arte de criar pessoas” sem regras rígidas, que gerou o Brasil mulato e mameluco, acabou por enraizar-se no imaginário nacional juntamente com o moralismo cristão.

A história do Brasil é, pois, uma história de contrastes entre: ordem e anarquia; governo e povo; moralidade e liberalidade; catolicismo e sincretismo religioso; etc.Desses contrastes surgem e desenvolvem-se os dois Brasil.

Por um lado,há o Brasil dos “pequenos prazeres”, do “ainda temos tempo”, do “jeitinho”, do “deixa para lá”, do “entre oito e oito e meia”, do “aparece lá em casa”. Nesse, manifesta-se a brasilidade livre, mulata, sincrética, debochada, bagunçada, e hedonista.

Por outro lado, há o Brasil “anti-carnavalesco”, do “complexo de vira-lata”, do “Brasil não presta”, do “Brasil Potência”, do “agora vai!”, do “ame-o ou deixe-o”, do “vai te enxergar”, do “sabe com quem está falando”. Nesse, manifesta-se a brasilidade burocrática, legalista, formalista, controladora, moralista, ordeira, e idealista.

As manifestações públicas de vexame se baseiam na tensão existente entre esses dois países condenados à convivência mútua.Tanto Vélez quanto Eduardo Bolsonaro se mostraram pertencer ao“partido controlista”, manifestando vergonha em relação ao “partido anarquista”; enquanto José de Alencar fez o oposto – anarquista, afirmou que o controlismo é um “mau costume” e, pior, uma importação de prática estrangeira. Contudo, apesar dessas diferenças, o Brasil é ainda um só.

Nós somos, de fato, dois-em-unidade, em que ambas facetas são manifestações distintas de um mesmo todo. O Brasil precisa harmonizar seus pólos opostos– o que é uma tarefa impossível, porém necessária. A tensão existente em que é invencível. Qualquer tentativa de sobrepujar um lado ao outro resultará inevitavelmente em fracasso. O que fazer, então?

Brasilidade como Virtude

Eu morei quatro anos no exterior, e, se havia alguma dúvida de que sou anarquista, essa deixou de existir enquanto estava fora. Voltei fã do deboche, do jeitinho, e da falta de seriedade brasileiras.

Nesse ponto, sou muito mais parecido com José de Alencar do que de Eduardo Bolsonaro. Se há um elemento da teologia política brasileira que gostaria de ver resgatado é o entendimento do deboche como virtude, da sua estimulação no espaço público devido a sua relevância comunitária.

A função social do deboche não é fazer rir. Devidamente entendido, o deboche serve tanto para desarmar o “todo-de-si”, quando feito de “baixo para cima”, quanto para incitar o “nada-de-si”, quando feito de “cima para baixo”.

O deboche avisa ao socialmente superior que ele não é tão bom quanto pensa e ao socialmente inferior que ele não é tão invisível quanto crê; é uma ferramenta para o desenvolvimento de modéstia e de coragem. [E, sim, acabei de defender o bullying – o conceito é uma importação estrangeira.] Em resumo, bem feito, o deboche é franco, é nivelador, é fraterno, e é agregador.

Uma das características que mais admiro da cultura brasileira, da nossa auto-compreensão do que significa “ser brasileiro,” da característica unificadora nacional, é justamente essa capacidade do brasileiro de não se levar a sério; de estar aberto ao deboche.

Antes que me entendam mal, é evidente que falta de seriedade tem pontos negativos. Não se pode levar a falta de seriedade a sério! Falta de seriedade não pode ser um fim em si. Há questões sérias que devem ser tratadas como tais.

O “não se levar a sério” serve para preservar o foco naquilo que é verdadeiramente relevante.Como disse G.K. Chesterton: “O contrário de ‘engraçado’ não é ‘sério’, mas ‘sem-graça’.” A frase, aliás, é muito melhor em português do que no original em inglês. Afinal, “engraçado” significa “estar tomado de graça”; o oposto de “sem-graça”.

O bom humor é inspirado, é divino. Nada pode ser mais sério do que isso.

O Senso-Comum Brasileiro

Nas manifestações de 2013, por exemplo, percebia-se nitidamente aquele espírito “se a vida lhe deu limões, faça uma caipirinha”, a capacidade de se combater o absurdo com o seu verdadeiro rival: o deboche – como na reação contra abuso de polícia assumindo a forma do “V de Vinagre”.

Sem perder a noção de que se estava na rua movido por um sentimento de indignação, os brasileiros faziam festa e carregavam cartazes com anúncio de classificados e contra o preço do chocolate. Em março de 2017, a Fundação Perseu Abramo (PT) publicou estudo confirmando essas impressões sobre 2013.

O trabalho foi feito com moradores da periferia de São Paulo, porém, as conclusões confirmarem-se também em diversas outras regiões do país. Trata-se do melhor retrato recente do Brasil Profundo, o qual se revelou: anarquista, tolerante, ecumênico, anti-dogmático, comunitarista, e liberal – inclusive entre os neo-pentecostais. Mas, não demonstrara nenhum ranço no ponto onde haveria bons motivos para tensão social: a desigualdade econômica.

O senso comum do brasileiro está intacto e fundamenta um Brasil que não gosta e não quer saber de imposições do alto para baixo. É um Brasil que rechaça ser tratado como criança, e lhe dizerem o que fazer e como pensar. É um Brasil que quer ser senhor de si mesmo.

É o Brasil de “Deus, Pátria, Família, Segurança, e Liberdade”. Esse é o Brasil que elegeu Jair Bolsonaro, o pai do Eduardo e chefe do Vélez, presidente. Os anarquistas elegeram um notório controlista, porém, ao mesmo tempo,clamaram nitidamente: “Chega de controle! Se não for para ajudar, que, ao menos, pare de atrapalhar!” E para parar de atrapalhar, pode-se começar parando de sentir vergonha do que nós somos.

Nós somos o que somos, e é impossível que nos tornemos algo diferente. Os controlistas do governo precisam trabalhar com os anarquistas que os elegeram, e não, contra. Para o Brasil e os brasileiros tornarmo-nos as melhores versões daquilo que somos, controlistas e anarquistas precisam da ajuda um do outro.

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Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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