Introdução

Tu enxergas política como se fosse um Grê-Nal!” Sim, enxergo; e isso é bom. Afinal, eu sou gremista e adoro o Grê-Nal. Como não há Grê-Nal sem o Internacional, obrigatoriamente preciso gostar do Colorado, também. Como afirmei na semana passada: “Quero vencer o Colorado, seco o Colorado despudoradamente, mas não desejo o mal ao Colorado. O Internacional é parte do Grê-Nal e, portanto, é parte do Grêmio. Amar o Grê-Nal é amar o rival, pois sem o rival não há o clássico.” Na política, também é preciso amar o rival que desejamos vencer todas as vezes. Faz parte do jogo.

A Política é um jogo – parte 1

Na coluna da semana passada, comecei a explicar como entendo ser o jogo político. Apresentei a política como um jogo obrigatório, inescapável, imorredouro, e fundamental para o nosso desenvolvimento como seres humanos. “O Grê-Nal é um campeonato à parte”, fala-se. Igualmente, argumentei a finalidade do jogo político ser o próprio jogo político. É preciso segui-lo jogando sempre.

Além disso, justifiquei o que significam os termos “centro” e “extrema” no contexto da disputa política – seriam direções; não, lugares. As pessoas, pois, não são de “centro” ou “extrema” e nem estão no “centro” ou na “extrema”. Movemo-nos ao centro ou à extrema, dependendo da inclinação em aproximamo-nos ou afastarmo-nos de quem esteja no outro lado.

Para finalizar esta apresentação sobre o tema, segue-se a segunda parte. O texto de hoje, continuando na analogia futebolística, trata: (a) da multidimensionalidade da política e as decorrentes posições dos jogadores; e (b) dos dois lados da disputa pelo poder político.
Parte 2

III. As Diversas Dimensões da Política e os Tipos Políticos Básicos

A finalidade da política é si mesma. O jogo político, porém, ocorre em diversas dimensões concomitantemente, cada qual com dois lados opostos em tensão entre si; e cada um desses lados, com tendências tanto de centro quanto de extrema.

Dessas dimensões, há três (organizacional, anímica, e referencial) cujos lados em tensão, quando combinados, resultam nos tipos políticos básicos — oito, no total. Os tipos básicos servem de ferramenta na observação de padrões de comportamento, organização, e ação política. Para entendermos os tipos básicos, antes, vejamos as tensões dimensionais referidas.

          1. Tensão Organizacional: Anarquista x Controlista

A dimensão organizacional trata da forma como a sociedade toma decisões. Nessa esfera, a tensão dá-se entre “descentralização”, de um lado, e “concentração”, do outro.

O lado que defende uma organização descentralizada (a coexistência de diversas ordens políticas capazes de tomar decisões sobre suas próprias questões políticas, mas dentro de uma ordem comum), chamo-o – na falta de nome melhor – de “anarquista”. O lado oposto, que defende uma organização concentrada (uma única ordem comum a todos os membros da comunidade), chamo-o de “controlista”.

Os centros e os extremos variam tanto conforme a intensidade quanto à noção do escopo da comunidade. O maior extremo anarquista é ter cada indivíduo como uma “comunidade” independente e autônoma. Já o maior extremo controlista é almejar um único e mesmo governo para todo o planeta.

Porém, entre esses extremos, há diferentes graus de posições anarquistas e controlistas, dependendo da compreensão de comunidade; relevante na diferenciação e identificação das posições anarquista e controlista em conflito. Por exemplo, alguém pode ser controlista para o que entende ser seu país e anarquista em política internacional.

Da mesma forma, há quem possa ser anarquista para ordens políticas inferiores, mas controlista dentro dessas ordens. Igualmente, há quem seja controlista para o governo central, mas anarquista para comunidades locais. Ainda, todos esses exemplos, e mais, permitem que tais pessoas tendam ao centro ou a extrema.

          2. Tensão Anímica: Liberal x Conservador

A dimensão anímica trata da reação diante dos inescapáveis defeitos da ordem política. Nessa esfera, a tensão dá-se entre “mudança”, de um lado, e “continuidade”, do outro.

O lado que ativamente busca enfrentar as injustiças percebidas na sociedade através de alterações na ordem política, arrojado, é conhecido por “liberal”. O lado oposto, temente que mudanças venham agravar os problemas, cauteloso, é conhecido como “conservador”.

Os centros e os extremos variam dependendo da questão enfrentada e da alteração sugerida. O maior extremo liberal é almejar a promoção de alterações constantes ininterruptamente. Já o maior extremo conservador é o de procurar vedar toda e qualquer alteração na ordem social.

Porém, entre esses extremos, há diferentes graus de posições liberais e conservadoras dependendo das circunstâncias e da questão em voga; relevante na diferenciação e identificação das posições liberal e conservadora em conflito.

Por exemplo, alguém pode ser liberal quanto à existência de desigualdade econômica e conservador quanto a normas trabalhistas. Da mesma forma, alguém pode ser conservador quanto à obrigatoriedade de prestação do serviço militar e liberal quanto as atuais empresas estatais. Igualmente, alguém pode ser liberal até a ocorrência da alteração e passar a ser conservador em relação à nova situação. Ainda, todos esses exemplos, e mais, permitem que tais pessoas tendam ao centro ou a extrema.

          3. Tensão Referencial: Tradicionalista x Progressista

Por fim, a dimensão referencial trata da fonte de autoridade para o estabelecimento das questões políticas e dos fundamentos para as suas respostas – principalmente, “quem somos?” e “quem queremos ser?” Nessa esfera, a tensão dá-se entre “passado”, de um lado, e “futuro”, do outro.

O lado que busca na história os paradigmas de referência para tratar dos problemas políticos atuais é conhecido por “tradicionalista”. O lado oposto, que busca no futuro – na melhor versão de sociedade – a referência para tratar dos problemas, é conhecido como “progressista”.

Os centros e os extremos variam com o grau de deferência aos paradigmas. O maior extremo progressista é ter como paradigma um futuro completamente desapegado do passado histórico da comunidade. Já o maior extremo tradicionalista é o de ter no passado a referência de melhor versão de sociedade, sem qualquer referência futura.

Porém, entre esses extremos, há diferentes graus de posições tradicionalistas e progressistas, dependendo tanto da questão enfrentada quanto do peso em que a pessoa coloca nas lições do passado e na projeção de futuro. Não se pode confundir esta dimensão com a anterior. Um tradicionalista pode ser liberal; e um progressista, conservador. O ponto aqui não é mudar ou permanecer, mas como se justifica a resposta.

Exemplo:

Por exemplo, alguém pode defender mudanças em favor da igualdade econômica baseando-se na história da sua própria sociedade (“nascemos como uma sociedade de iguais, mas nos tornamos economicamente desiguais”) ou num ideal futuro (“sempre houve desigualdade entre nós, mas precisamos nos tornar uma sociedade sem diferenças econômicas”).

Da mesma forma, alguém pode defender a manutenção do serviço militar obrigatório historicamente (“a obrigatoriedade foi instituída por uma reconhecida necessidade e, desde então, tem cumprido seu objetivo”) ou idealmente (“nossa sociedade precisa de cidadãos bons e patrióticos, e a obrigatoriedade da formação militar é essencial nesse sentido”). Ainda, todos esses exemplos, e mais, permitem que tais pessoas tendam ao centro ou a extrema.

          4. Os Oito Tipos Políticos Básicos

A partir da combinação dos lados em tensão nessas três dimensões, tem-se os oito tipos básicos políticos:

  1. a) anarquista-liberal-progressista (“precisamos novas respostas, as quais resolvam as injustiças criadas e preservadas pelos nossos antepassados; porém, que se permitam as comunidades encontrarem cada uma a sua fórmula”):

– organização descentralizada

– proatividade contra defeitos

– referência no resultado futuro

  1. b) anarquista-liberal-tradicionalista (“enfrentar as injustiças da sociedade é o desafio de cada nova geração, a qual deve sempre aprender com as respostas que já foram dadas por seus antepassados; porém, que se permitam as comunidades encontrarem cada uma a sua fórmula”):

– organização descentralizada

– proatividade contra defeitos

– deferência ao passado

  1. c) anarquista-conservador-progressista (“as próximas gerações não podem receber de nós injustiças piores e mais graves do que estas transmitidas por nossos antepassados; contudo, que se permita a cada comunidade decidir sobre o que fazer”):

– organização descentralizada

– cautela quanto a alterações

– referência no resultado futuro

  1. d) anarquista-conservador-tradicionalista (“a busca por justiça é comum a todas as gerações, e a sabedoria das respostas encontradas por nossos antepassados é o que mantém contidas as nossas injustiças; contudo, que se permita a cada comunidade decidir sobre o que fazer”):

– organização descentralizada

– cautela quanto a alterações

– deferência ao passado

  1. e) controlista-liberal-progressista (“precisamos novas respostas, as quais resolvam as injustiças criadas e preservadas pelos nossos antepassados; todavia, é preciso evitar que uma multiplicidade de respostas acabe por prejudicar esse esforço, permitindo que a atual situação perdure ou se agrave”):

– uniformização de decisões políticas

– proatividade contra defeitos

– referência no resultado futuro

  1. f) controlista-liberal-tradicionalista (“enfrentar as injustiças da sociedade é o desafio de cada nova geração, a qual deve sempre aprender com as respostas que já foram dadas por seus antepassados; todavia, é preciso evitar que uma multiplicidade de respostas acabe por prejudicar esse esforço, permitindo que a atual situação perdure ou se agrave”):

– uniformização de decisões políticas

– proatividade contra defeitos

– deferência ao passado

  1. g) controlista-conservador-progressista (“as próximas gerações não podem receber de nós injustiças piores e mais graves do que estas transmitidas por nossos antepassados; outrossim, permitir a coexistência de respostas divergentes seria garantir que algo pior viesse a se concretizar”):

– uniformização de decisões políticas

– cautela quanto a alterações

– referência no resultado futuro

  1. h) controlista-conservador-tradicionalista (“a busca por justiça é comum a todas as gerações, e as nossas injustiças poderiam ser piores caso não tivessem sido contidas pelas sabedoria das respostas encontradas por nossos antepassados; outrossim, permitir a coexistência de respostas divergentes seria garantir que algo pior viesse a se concretizar”):

– uniformização de decisões políticas

– cautela quanto a alterações

– deferência ao passado

Tais tipos estão sempre em tensão entre si; porém nenhum é necessariamente ruim. Cada um é relevante para o equilíbrio do jogo político; sendo, pois, complementares.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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