Tu enxergas política como se fosse um Grê-Nal!” Certa feita, ouvi isso de um amigo. O pior é que para contestar a acusação eu tive que aceitá-la primeiro.

É verdade que entenda política como um Grê-Nal, mas para entender a frase é preciso entender o que seja o Grê-Nal para mim – um gremista apaixonado por futebol.

O jogo

O Grê-Nal não dura 90 minutos. O clássico tem mais de 100 anos, com 421 jogos disputados. Às vezes, um clube está por cima; noutras vezes, o outro. A cada clássico, ganha-se, empata-se, ou perde-se. Pode ser bom ou ruim, mas o sentimento não dura muito. Logo adiante, há mais um clássico a ser disputado. O Grê-Nal é imorredouro.

Ademais, o Grê-Nal só existe e só é importante por causa dos dois clubes. Como gremista, quero vencer o Internacional todas às vezes. Porém, para vencer o Internacional, é preciso que o Inter esteja também jogando. Quero vencer o Colorado, seco o Colorado despudoradamente, mas não desejo o mal ao Colorado. O Internacional é parte do Grê-Nal e, portanto, é parte do Grêmio. Amar o Grê-Nal é amar o rival, pois sem o rival não há o clássico.

Clubes de futebol têm suas histórias, suas personalidades, e suas idiossincrasias. Porém, é possível observar diversos pontos em comum – tanto dentro do campo, na organização tática e postura dos treinadores e jogadores, quanto fora, no comportamento dos dirigentes e dos torcedores. Não foram poucas as vezes que me percebi mais parecido com alguém vestido noutras cores do que com quem estivesse trajando as mesmas que eu.

Jogo e Política

Isso também ocorre na política. Afinal, como meu amigo bem observou: “Política é como um Grê-Nal” – uma disputa tensa e sem fim num jogo entre dois lados em conflito para mútuo benefício. [se eu disser que também consigo enxergar o casamento como um “Grê-Nal”, será que minha amada e compreensiva esposa entenderia a analogia?]

Dito isso, deixem-me explicar melhor como entendo o jogo político. Numa semana, publico a primeira parte: (a) a política como um jogo; e (b) como entender o significado de “centro” e “extrema”. Na outra semana, segue a segunda parte: (c) a multidimensionalidade da política e as decorrentes posições dos jogadores; e (d) os dois lados da disputa pelo poder político.

PARTE 1

Política: Tensão, Conflito, e Cooperação em Jogo

O fundamento da política é o conflito. O jogo político é composto por lados opostos em constante tensão um com o outro. Essa tensão entre os lados em disputa é natural em qualquer comunidade política – e qualquer associação humana é, nalgum grau, política.

  1. Jogo Humanizante

A tensão não apenas faz parte do jogo político, como lhe é constitutiva. Sem tensão não há política; sem política, não há comunidade; sem comunidade, não há ser humano. Querer acabar com a tensão é buscar a desumanização do homem, o que resulta em injustiça, opressão, violência, e mortes desmedidas.

  1. Jogo Sem Fim

O fundamento da política é o conflito, mas se trata de um conflito cooperativo. A finalidade do jogo político não é a resolução do conflito; e, sim, a sua perpétua continuidade. A política é um jogo no qual só se vence ao se continuar jogando. Uma vitória definitiva representa a derrota de ambos os lados, pois acaba com a comunidade. Os lados em disputa são interdependentes na comunidade da qual ambos são partes.

  1. Jogo entre Dois Lados

A tensão depende de lados em oposição, pelo que são sempre dois. Há uma multiplicidade de lados, mas essa é a decorrente da multiplicidade de tensões políticas, de dimensões (esferas, planos) distintas, que se combinam na prática. O “Centro” – ou, melhor dizendo, o “Centrão” – é nulo de substância política, pois não produz tensão alguma.

  1. “Centrão” x Centro

Como política é feita pela disputa de lados opostos em permanente tensão, é impossível haver uma sociedade politicamente sadia fundamentada sobre o Centrão. O Centrão é formado, basicamente, por aqueles que não têm interesse por política e por quem apenas deseja estar junto ao lado em vantagem; em suma, por desinteressados e interesseiros. Uma sociedade sadia politicamente é fundamentada sobre a disputa de “centros” opostos em tensão entre si.

A Tensão Mais Importante: Centro x Extrema

Os lados em oposição na disputa política possuem uma tensão interna insolúvel entre tendências divergentes. Convencionou-se chamar tais tendências por “centro” e “extrema”. Centro e extrema são direções; não, lugar. Portanto, inexiste relação entre a tendência de “centro” e o “Centrão”. Quem é de centro, tem lado. Por centro, entenda-se a tendência em fazer-se política buscando o outro lado; e, por extrema, a de seguir-se na direção oposta.

  1. Diferentes Formas de Encarar as Tensões Políticas

Apesar de as tendências não serem lados políticos, funcionam como “lados dentro dos lados”; e a relação entre essas forma a mais importante das tensões políticas. As tendências representam as formas opostas em lidar com tensão natural da política: (a) a “extrema” rejeita a tensão e visa acabar com o incômodo definitivamente – encerrando a comunidade com outro lado, eliminando a oposição do jogo político, seja legal ou fisicamente; e (b) o “centro” aceita a tensão e busca lidar com o incômodo temporariamente – reforçando a comunidade com o outro lado, buscando a oposição para a elaboração de consensos mínimos e transitórios que preservem o jogo político.

  1. Extrema: Ideologia, Filodoxia, Intolerância

Quando se fala em “ideologia”, o real problema em referência é a tendência de extrema. Trata-se de um sintoma de filodoxia – de amor à opinião. O ideólogo é um filódoxo; alguém apegado à sua própria opinião. Como o outro lado discorda da opinião que se defende, esse é visto como ameaça pelo ideólogo e sua tendência de extrema.

  1. Centro: Prudência, Tolerância, Amizade

Ao tender para o centro, faz-se o caminho oposto. O centrista reconhece a natural imperfeição de suas próprias opiniões, tanto quanto às dos outros. Aqueles que discordam da sua opinião, seja do lado oposto como do próprio lado, são vistos como parceiros no jogo político – na tarefa de depurar o certo e o errado dentre todas as opiniões políticas.

  1. Sociedade Sadia: Supremacia do Centro em Ambos os Lados

Centro e extrema compartem o mesmo lado na disputa política contra o outro – o qual também tem seu centro e sua extrema. Apenas a supremacia do centro em ambos os lados permite que a disputa política seja sadia – isto é, seja simultaneamente conflitiva e cooperativa.

Para tanto, é mister ir em direção ao centro sem renunciar o lado. Somente o conflito em que jamais se busca a vitória definitiva é capaz de fortalecer a comunidade e conter tendências extremadas.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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