Esta semana Gregório Duvivier escreveu um texto na Folha de São Paulo intitulado “Único jeito de ficar triste é ficar puto: quanto da sua tristeza você conseguiu transformar em ódio?” O subtítulo é espetacular, pois Duvivier é o mesmo sujeito que em 2014, em entrevista ao Jô Soares, disse: “vamos parar de dividir o Brasil, pelo amor de Deus. Todo mundo quer o bem do País!”.

Ao que parece, ele mudou de posição e quer manter o Brasil dividido. O “outro lado” não quer mais o bem do Brasil.

Aí, me chegou um tuíte acusando amigos e conhecidos de longa data de terem se tornado monstros por causa de política. Por fim, recebi uma mensagem de um conhecido vivendo na Europa contando uma anedota que passou na empresa dele.

Fui desabafar com um amigo, advogado e professor Marcelo Sarsur, sobre tudo isso, e tratamos de ideologia, da realidade política nacional, sobre o governo Bolsonaro, sobre os desafios que a Direita e Esquerda nacionais têm pela frente para que consigamos ser uma comunidade política sadia.

Achei o diálogo muito bom para ficar só entre nós. Resolvi compartilhá-lo com vocês.

IDEOLOGIA x BOM-SENSO

[Paulo Roberto Tellechea Sanchotene]: Conhecido meu, morando na Suíça:

Comentaram outro dia não entenderem como tolero a galera mais radical e barulhenta lá da firma. Vejam a última reclamação da galera da ‘inclusão e diversidade’.

A reivindicação do grupo radical da inclusão é que se cortem os benefícios que facilitem que os pais fiquem em casa com os filhos (licença paternidade+maternidade estendida, trabalho remoto, facilidades para tirar folga pra cuidar de criança etc).

Motivo: esses incentivos seriam injustos com as crianças cujos pais não trabalham na empresa e não tem a oportunidade de passar tanto tempo juntos. A empresa estaria amplificando a desigualdade social por facilitar que seus funcionários passem tempo com seus filhos.

O termo que Eric Voegelin adotou para descrever esse fenômeno é “pneumopatologia”. O problema NÃO é psicológico; tampouco, físico. Não adianta terapia, remédio, ou cirurgia. É uma DOENÇA D’ALMA! Essa idiotice desconhece limites exatamente porque o ESPÍRITO é INFINITO.

[Marcelo Sarsur]: Os idiotas do igualitarismo sempre existiram. Problema não é novo. Se pá, está melhor agora, porque não podem organizar grandes campanhas de fome na Ucrânia ou no interior da China.

[P.R.T.S.]: A patologia é tão humana quanto a sanidade. Sempre existiram; sempre existirão. Com o risco é imorredouro e nossas referências de normalidade andam enfraquecidas, é sempre bom apontar o problema e tratá-lo de maneira adequada.

O comentário veio da Suíça. Agora, por mais que eu creia haver patologias equivalentes no atual governo brasileiro, a boa notícia é que sua vitória eleitoral foi movida pelo senso comum. O senso comum, o “bom senso” comunitário, ainda resiste nas camadas mais populares do Brasil – ainda que as elites a tenhamos perdido.

[M.S.]: Paulo, o voto em Bolsonaro traduz muito mais um grito da masculinidade derrotada, uma reação (reacionária) de um mundo em derrota, do que propriamente um triunfo do common sense. Por mais que as esquerdas tenham se descolado desses valores tradicionais que você destaca, não se pode afirmar que a população viu isso em Bolsonaro. É um sujeito que prega a discriminação, que defende a violência, e isso até o eleitorado dele acha asqueroso. O público do Bolsonaro não é o pobre ou o remediado que votou nele porque não queria votar no PT de novo, mas o incel de Internet.

[P.R.T.S.]: Voltemos. Não ficou claro na primeira vez. Eu disse “por mais que eu creia haver patologias equivalentes no atual governo brasileiro“. Eu deveria ter dito que há patologias equivalentes também no eleitorado. Nisso, estamos em consenso. Porém, o que estás fazendo é focar nos piores exemplos e usando como paradigma para descrever o fenômeno em sua totalidade.

Podes estar certo? Infelizmente, sim. No entanto, reforço o resultado do estudo da Fundação Perseu Abramo de 2017. Ao invés de encontrar “um grito da masculinidade derrotada, uma reação (reacionária) de um mundo em derrota“, o estudo encontrou o “senso comum” brasileiro. Essas pessoas votaram no Bolsonaro.

O “incel da Internet” normalmente é escolarizado. Faz parte da elite.

POLÍTICA: POTEITO/POTATO

[M.S.]: Sim. E quem decide eleições, aqui e alhures, são as elites. A população acompanha a reboque.

[P.R.T.S.]: É uma troca. Precisa-se dos dois. A elite governa; a população elege e sustenta.

[M.S.]: Sim, sim. Mas a população não lança tendências; escolhe uma. Como já tinha escolhido o lulismo antes, quando o lulismo se apresentava como força de inclusão pelo crescimento.

[P.R.T.S.]: Essa é a “dança”.

[M.S.]: Essa é a guerra.

[P.R.T.S.]: Dança, guerra, jogo, política, casamento…”You say poteito, I say potato…“[M.S.]: Let’s call the whole thing off…

[P.R.T.S.]: Hahahahaha!!!! SIM!!! Eu me rio ridiculamente toda a vez que a música chega nessa parte. Isso é política! Meus guris me olham: “por que estás rindo?”

– Porque isso é política. É isso o que tento explicar para as pessoas. Discute-se e afirma-se ser impossível entender o outro, mas só o que estão dizendo é “poteito” e “potato”, e acham ser um impasse insolúvel. É bem como vocês dois!

[M.S.]: Exato. E não é tão difícil assim de entender o outro lado, se você se dispõe a ouvir.

[P.R.T.S.]: Com boa-fé. Aí, se começa a perceber as equivalências.

[M.S.]: O problema é que o eleitorado não quer a estabilidade do sistema político posto, mas está elegendo incendiários para os cargos de poder. Gente que está disposta a queimar o sistema antes de trabalhar com a “loyal opposition”.

EU SOU O BEM; O OUTRO É O MAL

[P.R.T.S.]: Sabes por quê? Ocorre que essa tal “estabilidade do sistema político posto” era frágil, pois alijava do jogo político UM TERÇO do eleitorado. Boa parte desse terço estava contente com o status quo enquanto havia dinheiro disponível. Acabou o dinheiro, acabou o amor. O PSDB recebia os votos, mas não fazia esforço algum para representar esse eleitorado. Isso é insustentável.

Sobre isso, leste a coluna do Duvivier de quarta-feira? Estou com meu trabalho atrasado, dissecando a asneira que ele falou.

[M.S.]: Acabei de ler. Ninguém nessa esquerda entendeu a anistia. Deviam perguntar ao Sepúlveda Pertence. Tenho certeza de que ele contaria. Já era. Passou. E sim, todo mundo errou mesmo. Dos dois lados. Ele se esqueceu de que Dilma Rousseff roubou bancos? Ignorar o pacto constituinte da anistia é ignorar a condição fundante da nossa democracia. Duvivier messianista.

[P.R.T.S.]: É por aí. Pois bem, ele termina o artigo assim:

A ditadura no Brasil terminou com aquela impressão de ‘todo o mundo errou, bola pra frente’. Bola pra frente é o caralho. Figueiredo tinha que ter sido largado no mato pelado em seu cavalo —como o prefeito de ‘Bacurau’. Preferimos a conciliação. Os torturadores gozaram de liberdade e aposentadoria farta, e suas filhas solteiras também. ‘Todo o mundo errou.’ Quem nunca torturou uma mulher grávida? Quem nunca torturou uma mãe na frente dos filhos? Bola pra frente.

Mas não é hora de lamentar. É hora de se perguntar. Hoje: Quanto da sua tristeza você conseguiu converter em ódio? Quanto do seu ódio você conseguiu converter em ação? O que você fez pra atrasar, nem que seja um pouquinho, o apocalipse?

Podem-se resumir os problemas em cinco pontos:

  1. A ditadura terminou em 1984. Duvivier nasceu em 1986
  2. Preferimos a conciliação“, mas segue remoendo fatos anteriores à vida dele.
  3. Todo mundo errou“, como quem diz “eu não errei“. Farisaísmo total.
  4. Odeia o atual governo com todas as forças, evocando memórias de antes de ter nascido.
  5. Prega o conflito total

[M.S.]: Isso é tudo o que o bolsonarismo mais ferrenho gostaria de ouvir.

[P.R.T.S.]: É justamente esse o ponto!

[M.S.]: Eles precisam de um inimigo comum para ganhar o centro. E vai o beócio do Gregório e oferece um a eles.

[P.R.T.S.]: Não. O Gregório não está oferecendo nada. Essa oferta sempre esteve na mesa. “Preferimos a conciliação” é uma MENTIRA. A Esquerda, e o texto do Duvivier é evidência, jamais perdoou 1964.

A Esquerda pós-1985 sempre almejou um país sem Direita. A mera presença da Direita gera ÓDIO na turma “Paz e Amor”. Olha, por exemplo, este tuíte da Biazita Gomes, quem se apresenta como “professora de Filosofia, especialista em Filosofia política, feminista, social Democrata”:

A consequência mais terrível da eleição do Bolsonaro é constatar que o vizinho simpático, o colega de trabalho divertido, não existem. São máscaras de monstros que vivem na sociedade com a gente mas não compartilham dos ideais civilizatórios. Nos matariam sorrindo.

Noutras palavras, aquilo que está dizendo indiretamente ao vizinho e ao colega de trabalho é o seguinte: “Sempre te conheci, sempre gostei de ti; mas agora descobri pela posição política que, tudo bem, sempre tiveste e eu sempre soube, ‘descobri’ que tu és um monstro.” Isso é a verdadeira política “café-com-leite”! Podem participar, mas não podem ganhar. Essas pessoas crêem-se democratas, mas são incapazes de aceitar o contraditório.

[M.S.]: De fato!

[P.R.T.S.]: Pois foram as biazitagomes e os gregorioduviviers do Brasil que criaram o Bolsonaro. Pior, foram quem o tornou necessário.

[M.S.]: Jean Wyllys e Bolsonaro como fenômenos que se retroalimentam.

[P.R.T.S.]: Exatamente! Volto ao Duvivier: “O que você fez pra atrasar, nem que seja um pouquinho, o apocalipse?” Ora, o que seria esse “apocalipse“? É um mundo em que a Direita participa do processo político e governa. Isso é intolerável para o Duvivier, para a Biazita, e outros tantos. Eles têm a Direita como inimiga do mundo.

[M.S.]: Concordo.

[P.R.T.S.]: Duvivier chama de “conciliação” permitir que as pessoas de Direita vivam. Esse é o limite da tolerância dele – que, imagino pelo texto, já nem seja mais esse. E a Biazita afirma que os monstros estão do outro lado! Esses dois não estão sozinhos. São legião; paradigmas do regime estabelecido na Nova República.

A NOVA REPÚBLICA: UM BRASIL SEM DIREITA

[M.S.]: Espera aí. Sua leitura não está de todo certa. A Direita estava na Nova República. Esteve no governo na Nova República até 2003, e depois. Não há Nova República sem o PFL, e o PFL era uma direita muito mais aceitável do que o PSL das vivandeiras da ditadura.

[P.R.T.S.]: Sim e não. O PFL não virou DEM por acaso. Essa Direita foi defenestrada da política durante o governo do Fernando Henrique e nenhuma assumiu-lhe o lugar. O PSDB ficou com os votos da Direita no Sul; e o PT, no Nordeste.

[M.S.]: A ascensão do PT no Nordeste substituiu o clientelismo de direita, da ARENA, pelo clientelismo lulista do Bolsa Família. Isso foi uma hecatombe para a Direita, sim. Mas na prática não tem muita diferença para o eleitor que precisa do clientelismo e que continua na miséria abjeta.

[P.R.T.S.]: Esse é um tema interessante, mas estamos fugindo um pouco do assunto.

[M.S.]: Certo. Até por pertencer à Direita, quero que ela tenha representação. Tem toda a legitimidade para participar da política, mas nós falávamos sobre compromissos fundamentais, poteito e potato.

[P.R.T.S.]: Isso.

[M.S.]: A Direita acordou. Aliás, as Direitas, desde os coletinhos do Novo na Faria Lima até os energúmenos lamber botas da ditadura passada. A direita democrática estava se reorganizando. Não só as tendências conservadoras, mas um direitismo anarcocapitalista também. Entretanto, a Direita pró-ditadura não compartilha dessa língua comum e portanto não pode ter lugar no discurso da democracia.

[P.R.T.S.]: Talvez tenhamos ganhado a eleição antes do tempo. Mas é que o governo petista se destruiu muito rapidamente; levando a “oposição” tucana consigo.

[M.S.]: O PSDB nunca foi Direita. E não será direita sob Dória. Ele mesmo já entendeu isso.

[P.R.T.S.]: Esse é um problema para os tucanos resolverem entre eles. O partido nunca foi Direita, mas a Esquerda tampouco os reconhece como seus. Eles terão que se reencontrar ou vão desaparecer. No auge tucano, a realidade é que nossa dicotomia não era entre Direita e Esquerda: o PT era o partido conservador; o PSDB, o liberal; porém, ambos de Esquerda.

Bem grosso modo, a Direita mais conservadora, normalmente rural, votava nos petistas; a Direita mais liberal, normalmente urbana, nos tucanos. Tanto que com o ressurgimento da Direita, esses votos conservadores petistas NÃO migraram para o PSOL.

UMA DIREITA SÃO VÁRIAS

[M.S.]: Claro, mas resta saber se a direita democrática vai prevalecer sobre a não democrática

[P.R.T.S.] De fato, a Direita não é apenas pró-ditadura. Também há aqueles que têm asco do regime militar. Da mesma forma, há aqueles que entendem a necessidade do golpe em 1964, mas acham que os milicos pisaram na bola (diga-se, esse último é o grupo ao qual me afilio).

[M.S.]: Estou de acordo com vocês. A leitura de 1964 não é de bons contra maus. Nem de democratas contra golpistas. O golpe viria de qualquer dos dois lados, era só questão de oportunidade.

[P.R.T.S.]: Outrossim, há os energúmenos na Direita, por óbvio. Há, porém, um outro grupo que defende a ditadura militar; mas defende HISTORICAMENTE. São grupos distintos. O grupo “histórico” acredita que a ditadura tenha sido necessária para solucionar um problema específico num momento particular da história nacional.

Os energúmenos não têm lugar na democracia. Mas o problema é que, devido aos energúmenos, deseja-se que a Direita pague como um todo. Tanto é assim que o atual mito fundador do Brasil, o mito da Nova República, é o golpe de 31/3/1964: a agressão da Direita malvada contra a democracia e a Esquerda. Isso é ridículo.

[M.S.]: Quanto os energúmenos não terem lugar na democracia, estou totalmente de acordo. A começar pelo Presidente da República.

BOLSONARO É NECESSÁRIO PARA A DEMOCRACIA

[P.R.T.S.]: Bolsonaro é do grupo que defende a ditadura militar, mas historicamente. Os energúmenos gostam dele por isso; acabam se identificando. Porém, presta atenção no que o governo vem fazendo, e tu vais reparar que o governo Bolsonaro está trabalhando para reforçar nossas instituições.

[M.S.]: Sim. Tomara. O MMA não prova seu argumento até agora; nem o MRE.

[P.R.T.S.]: Podes incluir o MEC e o MDH nessa lista. Não precisas ficar contido nas críticas! Esses ministérios são liderados pelo que chamei de “os quatro cavaleiros do apocalipse”, antes mesmo do texto do Duvivier. São onde o governo trava as batalhas mais duras. As regras do jogo e as estruturas NÃO são feitas para que o atual governo… governe.

[M.S.]: Esse governo não é conservador, é reacionário. Há profunda diferença, que tu conheces melhor que eu.

[P.R.T.S.]: Estão puxando a Extrema para mover o Centro. Mudar o Centro é fundamental. O “vizinho simpático e o colega de trabalho divertido” não podem mais ser “extrema-direita”.

[M.S.]: Mover a Janela de Overton. Falei nisso hoje. Bolsonaro se vê como centro-direita. Quem está à direita dele? Genghis Khan?

BOLSONARO: NECESSÁRIO PARA A DEMOCRACIA

[P.R.T.S.]: Isso não significa lá muita coisa. Se for para significar algo, acho que Bolsonaro apenas afirma não pertencer aos energúmenos. Se for isso, o que ele disse, faz sentido. Aliás, a minha hipótese é que o Bolsonaro é o que protege nossas instituições das aspirações dos energúmenos. Não posso confirmar minha hipótese, mas até agora, essa não me parece ter sido tampouco afastada.

[M.S.]: Existem energúmenos, vários, até na prole presidencial, daí meu receio. Deus nos ajude se for realmente isso!

[P.R.T.S.] E há alternativa? Vota-se e reza-se! O governo brasileiro encontra-se sanduichado entre o Congresso, o Judiciário, a Burocracia, e os energúmenos nas Forças Armadas. O problema todo está aqui. É uma tarefa que um “bom moço” não agüentaria dois dias. Fez-se Bolsonaro necessário.

[M.S.]: Sim. É preciso ter virtù para governar. Ainda assim, eu vejo o Bolsonaro como o paladino da direita anti-democrática.

[P.R.T.S.]: Exatamente. É por isso que eles não fazem nada, enquanto a Direita democrática trabalha. Eles têm o representante no posto máximo; que ladra, ladra, ladra, para vibração dos energúmenos, enquanto o gabinete toca as tarefas de governo. Por isso eu disse que, no momento, acredito que a Direita democrática prevalece POR CAUSA do Bolsonaro. Se o Bolsonaro conseguir realizar o papel que lhe compete nessa situação, ele criaria as condições para que um “bom moço” de Direita governe depois dele sem impedir que um “bom moço” de Esquerda faça o mesmo.

[M.S.]: Teu Bolsonaro noumênico, platônico, não condiz com o Bolsonaro fenomênico. O Bolsonaro que temos é o que fala em eliminar a esquerdalha, que interfere nas eleições de vizinhos.

[P.R.T.S.]: São inseparáveis, como diria Aristóteles. Se Bolsonaro conseguirá ser o que deve, isso é outra questão.

O ROMPIMENTO DA BARRAGEM POLÍTICA

[M.S.] Você acha, então, que a direita democrática vai prevalecer sobre a não democrática como esquerda democrática conseguiu prevalecer sobre a não democrática até muito recentemente, até o impeachment da Dilma? E olha que uma certa direita, a fisiologista, religious right brazuca, foi governo na era do PT. Mas não era GOVERNO, era governista.

[P.R.T.S.]: Boa pergunta. Voltemos à Nova República. Esse regime (de 1985 a, oxalá!, 2018) consolidou-se como um consenso entre a Esquerda e o Centrão, fundado na corrupção, em detrimento da Direita. Se tivesse sido efetivamente democrático, não estaríamos passando pelo que passamos agora.

Nós estamos passando por um período de instabilidade porque a Direita estava represada. Mariana e Brumadinho não aconteceram apenas fisicamente. Houve um rompimento de barragem política no Brasil.

Quando o “vizinho simpático e o colega de trabalho divertido” são considerados de “extrema” e alijados do jogo político porque defendem valores religiosos, preocupam-se com a família e a educação de seus filhos, preferem liberdade para empreender ao cuidado estatal, querem exercer seu dever de proteger os seus e os próximos, não tem vergonha de serem brasileiros, exigem que a elite pare de se comportar como pobres com dinheiro, há algo muito errado. Para criar um sistema político efetivamente estável é preciso que a Direita volte a ter legitimidade política, sem que a Esquerda perca a sua. Aí, as águas políticas teriam retornado ao seu leito natural, sem represamentos.

Percebes agora porque o regime ruiu como se fosse um Palace II?

[M.S.]: Claro. Essa sub-representação era patente.

O DESAFIO DA ESQUERDA

[P.R.T.S.]: E é isso que a Esquerda tem enorme dificuldades de entender. Está naquele fantástico discurso do Mano Brown: “não consigo olhar para o meu amigo de anos.”

Como assim? Muito provavelmente, ambos votavam no PT, mas por razões diferentes. Agora, o amigo tem uma opção que lhe parece mais apropriada. O amigo não mudou. Mas aos olhos da Esquerda, aparentam terem-se tornado MONSTROS.

[M.S.]: E olha que foi o Mano Brown que mandou o PT, com acerto, olhar pra periferia e entender porque perdeu.

[P.R.T.S.]: Ele não sabe a resposta. Ele só reconhece o fato. Ele não entende os amigos. Ele está incomodado com isso e coloca responsabilidade no PT. O discurso é maravilhoso. Ele quer os amigos de volta. Para isso, ele crê que o PT é quem precisa mudar. Nisso, ele se difere das biazitas e, principalmente, dos duviviers.

Tu disseste enxergar “Jean Wyllys e Bolsonaro como fenômenos que se retroalimentam”. Pois é preciso incluir as biazitas e os duviviers nessa conta. É essa Esquerda que faz Bolsonaro ser necessário; e quanto mais forçarem, mais Bolsonaro será necessário. Às vezes eu penso se a intenção dessas pessoas não seria de provocar os energúmenos, para que haja um golpe, e que esse acabe enterrando a Direita democrática de vez por todas. Não me parece haver outra razão.

Mano Brown, pelo contrário, se aproxima do Gabeira quando afirma: “eu sei que a população brasileira é assim.” Gabeira não se importa que a Direita participe da política; se a Esquerda jogar também. Mano Brown quer DEMOCRACIA e pede para que o PT escute a Demos brasileira – como a Direita agora faz. Ao fim e ao cabo, ambos pedem para que o Centro mude de lugar – que vá para a Direita.

Ora, com o Centro mudando de lugar e abraçando a Direita num novo consenso, Bolsonaro não seria mais necessário. A própria estabilidade do sistema contém os energúmenos de Direita e seus equivalentes de Esquerda, os biazitas-duviviers. O melhor combate ao Bolsonaro é a Esquerda fazer um “mea-culpa” do fato de ter alijado á Direita do jogo politico. Mas há muitos que crêem não terem feito nada de errado!

[M.S.] Sim. Democracia é isso. Acordo sobre as regras do jogo. O resultado da partida sempre fica em aberto. Mas essa esquerda que tu criticas não quer dúvida acerca do resultado: quer só saber por qual placar ganha.

[P.R.T.S.] Perfeito! Esse é o ponto. Para a Direita democrática vencer é necessário que a Esquerda aceite a presença da Direita e se torne realmente mais democrática. É preciso que a Esquerda ouça Mano Brown, Gabeira, até, inclusive, o Cid Gomes. Se não fizerem, “vão perder e vão perder feio” de novo.

FINALIZANDO

[P.R.T.S.]: Estão com medo de monstros; é capaz de acabarem criando um. E aí, vão mesmo querer eleger o Witzel?

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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