A base do governo ainda comemorava a vitória da reforma da previdência na Câmara quando o presidente Jair Bolsonaro anunciou, de forma abrupta, que indicaria um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, para o cargo de embaixador do Brasil em Washington.

No meu entender, o anúncio foi equivocado tanto na forma quanto na substância.

Nome ajuda, mas também prejudica

Sempre que se nomeia alguém da família para cargos públicos, isso gera desconfiança – ainda que injustificadas. Aqui, serve a máxima da mulher de César: “não basta ser honesta; tem que parecer honesta.” Podendo evitar, é melhor que se evite; pois o desgaste não compensaria o eventual ganho. É injusto? É, mas ser filho do presidente traz vantagens e desvantagens como qualquer outra situação de vida.

Ainda, este ano, já houve o caso da promoção do filho do Mourão. Nesse caso, ao menos, não foi feita pelo pai, e ele tinha um currículo que justificava a nomeação. Porém, foi um episódio utilizado para prejudicar o governo, e deixou a base, no mínimo, desconfortável. Ademais, a relação próxima do presidente com os filhos é algo que atrapalha a imagem do governo desde sempre, e a indicação do Eduardo apenas agrava esse problema.

Registre-se, por justiça, não haver nepotismo por uma série de razões. Não há favoritismo. Não é que haja vários nomes cogitados, e se tenha escolhido o filho do presidente. A indicação do Eduardo Bolsonaro, pelo contrário, é sinal de falta de nomes (algo em si preocupante, diga-se). Tampouco há a necessidade para o Eduardo de ocupar o cargo. Eduardo Bolsonaro está muito bem na Câmara Federal.

Eduardo Bolsonaro

Eduardo é o atual presidente da relevante Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Ademais, ele foi eleito deputado federal por São Paulo em primeiro lugar, com 8,73% dos votos válidos. Ele só fez menos votos que quatro candidatos a governador e sete candidatos a senador – pleitos majoritários, com número muito menor de concorrentes, e cada eleitor ainda tinha dois votos para o Senado. Faz parte das facilidades em carregar “Bolsonaro” no nome.

Entretanto, ainda que tivesse extensa experiência em relações internacionais, fosse como diplomata ou através da iniciativa privada, a indicação de Eduardo para o cargo de indicação teria o ônus de ter sido feita pelo próprio pai. O nome também pode pesar. Para agravar, Eduardo Bolsonaro é jovem, tem 35 anos, e, ao descrever suas credenciais para o cargo, afirmou: “sou presidente da Comissão de Relações Exteriores… já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos, no frio do Maine, estado que faz divisa com o Canadá, no frio do Colorado… Aprimorei o meu inglês…

Experiência e aptidão

Noutras palavras, segundo o próprio Eduardo Bolsonaro, ele estaria apto ao cargo de chefe da principal embaixada brasileira por ter a experiência de quatro meses à frente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara (assumiu em 14/03/2019), morado nos Estados Unidos, vivido na fronteira, fritado hambúrgueres, passado frio, e falar bem inglês. Com tais credenciais, parece que sua indicação é exclusivamente por ser filho do presidente. Parece privatização da política externa nacional; o que vai contra a mensagem de “Nova Era” pela qual ambos pai e filho foram eleitos.

Se é melhor evitar, mas o governo não evitou, é porque concluiu Eduardo ser a opção adequada. Ainda que Eduardo Bolsonaro seja realmente a pessoa mais apropriada para ocupar o cargo de embaixador do Brasil em Washington, o anúncio deveria ter sido feito quase que com pesar; como que reconhecendo da dificuldade da situação – algo do tipo “não era o que gostaríamos, mas é necessário.”

Nepotismo x nomeação por mérito

Ao tratar como normalidade, o governo deixou de ensinar aos brasileiros a diferença entre nepotismo e nomeação de parentes por mérito. Fica a pergunta se reconhecem essa distinção ou apenas a sentem – “não é nepotismo, mas não sei explicar por quê.” Se não sabem, é melhor que se aprenda rápido; se já sabem, é de bom tom que esclareçam àqueles que não sabem. Só não podem deixar a questão ficar como está.

Tudo ou nada

A indicação, todavia, é mais problemática do que meramente ser “do filho do presidente” e sem experiência e/ou qualificação prévias. As razões da escolha e o que essa representa para a nossa política externa precisam igualmente ser questionadas.

O agora chanceler Ernesto Araújo concluiu artigo sobre Trump de 2017 (“Trump e o Ocidente”, publicado em Cadernos de Política Exterior III.6 – 2017/2, IPRI. pp.323-357) afirmando: “somente Trump pode ainda salvar o Ocidente.” Portanto, quando se fala de nossa política externa, principalmente em relação aos Estados Unidos, precisamos ter claro que o nosso governo apoia abertamente a atual administração americana. Contudo, o ministro parece não ter encontrado ninguém no Itamaraty que compartilhe dessa sua opinião.

Eduardo Bolsonaro vem trabalhando próximo ao chanceler desde antes de o governo tomar efetivamente posse e, ao menos aparentemente, comparte dessa opinião. Por exemplo, Eduardo foi fotografado em 27 de novembro do ano passado saindo de uma reunião com conselheiro de Trump, o qual havia sido responsável por partes importantes da campanha eleitoral, com um boné “Trump 2020”.

O chanceler pode ter a opinião pessoal dele a qual bem entender, e essa opinião pode balizar ações do governo, mas é prudente evitar filodoxia – o apego exagerado a nossas próprias opiniões. O deputado pode ter a opinião pessoal dele, inclusive apoiar a quem bem entender, mas é preciso separar o indivíduo do país. A opinião do Ernesto, a opinião do Eduardo, não são a opinião do Brasil – e mesmo que sejam, a maneira de expressar essa opinião deve ser diferente.

Salvação do Ocidente

Nós podemos estar equivocados. No mínimo, é preciso estar-se aberto à possibilidade de Trump não ser o único meio de “salvação do Ocidente”. O que acontece caso Trump perca a reeleição? Condenamos o Brasil a uma histeria apocalíptica? Quiçá o chanceler fará um documentário, “Ocidente em Vertigem”, argumentando sobre como o Ocidente desperdiçou sua última chance de salvação. Capaz de passar no Netflix

Falando sério, que ELE possa sentir-se assim, é triste, mas é uma questão pessoal DELE. Não diz respeito a mim, que não o conheço pessoalmente. Agora, o Brasil é diferente e me diz respeito. Comunitariamente, temos obrigação de seguir nosso caminho independentemente do que aconteça nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar.  Nossas lideranças políticas têm o dever de garantir que isso aconteça.

Ademais, não é papel do Brasil fazer abertamente esforço para a eleição/reeleição de quem quer que seja; ao menos, porque podemos estar errados. Porém, é igualmente possível que a aposta fracasse, e o país fique em posição delicada perante a nação atualmente a mais importante do mundo. A indicação de Eduardo, todavia, simboliza uma decisão nesse sentido: all in; tudo ou nada. Assim, resta a pergunta: vale o risco?

Um filho por um filho

Pode ser que não haja alguém de confiança para se colocar à frente da Embaixada. De todas as hipóteses, essa é a mais grave. Se for esse o caso, ou Ernesto Araújo está isolado no Itamaraty, não crê que seus pares estejam à altura da empreitada, ou o governo tem sérios problemas em confiar em pessoas de fora de seu círculo próximo. Todas as opções são ruins. Porém, não seria essa a questão.

Pelo que se diz, o nome do Eduardo Bolsonaro teria sido sugerido por Donald Trump pessoalmente. Para convencer o Brasil, o presidente americano teria oferecido enviar seu filho como embaixador para cá em retribuição. Esse ponto convenceu muita gente, mas eu precisaria de argumentos mais sólidos.

O custo político

O custo político de Trump colocar o filho dele aqui não é o mesmo de Bolsonaro colocar o filho dele lá. O Brasil estaria enviando o filho do presidente para sua principal embaixada; os EE.UU., não. A retribuição seria equivalente ao Brasil enviar o Eduardo Bolsonaro para a embaixada brasileira na África do Sul – país importante, mas fora do eixo das principais relações internacionais que mantemos. A repercussão aqui seria outra. A retribuição não é equivalente.

O Brasil poderia ter aproveitado o fato de Eduardo Bolsonaro presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara e oferecido fazer de Eduardo o chefe da, imagine-se, “Missão Brasileira para os Estados Unidos”, colocando alguém de confiança à frente da Embaixada. Na prática, o embaixador responderia ao Eduardo.

Contudo, não haveria o desgaste da indicação do filho do presidente, e não passaria a imagem de o Brasil estar apostando todas as fichas em Trump e/ou privatizando nossa política externa. Além disso, Eduardo continuaria com seu mandato na Câmara.

Sinceramente, ainda acredito que as possíveis vantagens em ter Eduardo Bolsonaro como embaixador em Washington não superariam as desvantagens. Ainda vejo isso como um gol contra.

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Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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