A crise venezuelana chegou definitivamente às fronteiras com o Brasil e com a Colômbia. O governo brasileiro até o momento tem trabalhado para a queda de Maduro sem que haja necessidade de confronto bélico.

Essa opção, no entanto, é muito pouco provável que ocorra. Mesmo que Estados Unidos, Rússia, e China concordem com a queda do Maduro, haverá conflito, e o Brasil estará envolvido. Nós estamos colhendo o que plantamos. Nessa situação, o que seria melhor para o Brasil?

Venezuela e as Três Potências

A diáspora venezuelana já teria atingido 15% da população local e segue crescendo. Na Venezuela, não há trabalho, não há remédios, e não há comida, a não ser para a minoria “amiga do rei”. Notícias apontam que a inflação estaria na casa de 1.000.000% (um milhão por cento), e a repressão vem aumentando na medida em que a revolta popular cresce.

O aparato policial e militar é grande e equipado o suficiente para manter a oligarquia segura no poder contra uma população desarmada e enfraquecida. A última medida de Maduro foi fechar as fronteiras do país com Brasil e Colômbia: ninguém sai; e nada entra.

Nesse momento de tensão, quando se fala em “negociação” e “saída diplomática” para a Venezuela, não se está falando em sentar com Nicolás Maduro para conversar. Nem o papa Francisco, segundo o Corriere dela Sera, está disposto a intermediar conversas nesse sentido. Maduro não quer conversar com ninguém, estando disposto a preservar seu regime a qualquer custo.

O intelectual que inspirou Chávez, inclusive, já foi claro quanto a impossibilidade de saída pacífica para o caso. A diplomacia é, como em qualquer assunto sério no mundo, entre Estados Unidos, Rússia, e China. Nenhuma solução ocorrerá sem a autorização das três potências. Mas como essas se meteram na Venezuela?

Os americanos relegaram a Venezuela e a América do Sul a um segundo plano por muito tempo. No ano passado, Trump começou a retirar as tropas americanas do Oriente Médio; o que desagradara os neoconservadores.

Em troca, Trump ter-lhes-ia oferecido a Venezuela. Com as vitórias de Ivan Duque, na Colômbia, e Jair Bolsonaro, no Brasil, Trump teria visto na crise venezuelana uma oportunidade de restaurar na política externa americana o corolário de Roosevelt à Doutrina Monroe – isto é, da liderança americana no continente. O problema é que a Venezuela já é território de influência sino-russa há algum tempo.

A China e a Rússia são, atualmente, os maiores credores da Venezuela, de acordo com o Washington Post. O regime venezuelano foi sustentado durante um bom tempo por investimentos chineses, os quais foram bastante reduzidos pela crise econômica do país.

Maduro, então, procurou os russos para formar nova parceria. Ao contrário dos chineses, mais interessados no petróleo venezuelano que em poder, os russos aproveitaram a aproximação venezuelana para reforçar sua influência política na região.

Venezuela e os Vizinhos

Brasil e Colômbia não querem se intrometer em problema interno venezuelano sem o aval das potências. Porém, a crise venezuelana vem afetando-os, além de outros países sul-americanos, diretamente.

A população venezuelana que já saiu do país, mas que ficou nos municípios limítrofes estão entrando em choque com as forças de Maduro. As tropas oficiais da Venezuela têm respondido, de modo que tiros e bombas estão cruzando a fronteira.

Oficialmente, Brasil e Colômbia já foram agredidos pela Venezuela – a qual, inclusive, tem mísseis posicionados que poderiam atingir Manaus. Com o conflito aumentando em suas fronteiras, Brasil e Colômbia não podem ignorar a situação por muito tempo.

Até o momento, Duque e Bolsonaro conseguem segurar a opinião pública de seus respectivos países; Duque, porém, com maior dificuldade que Bolsonaro – afinal a fronteira é mais relevante para a Colômbia do que para o Brasil. De qualquer forma, a pergunta já não é se Brasil e Colômbia invadirão a Venezuela, mas quando o farão e para quê.

Os Estados Unidos sabem e estão usando isso, e a proximidade que têm com os governos colombiano e brasileiro, para forçar a mão de russos e chineses na mesa de negociação. Quando as tropas brasileiras e colombianas entrarem na Venezuela, ainda que apenas visando afastar as tropas de Maduro o suficiente das fronteiras para protegerem seus territórios, a guerra começa oficialmente.

Se o fizerem sem o “de acordo” das potências, as negociações seriam prejudicadas, e ninguém saberia ao certo o que poderia acontecer. Isso, todos concordam; e é o motivo pelo qual nada aconteceu ainda. Mas pode chegar o momento em que Colômbia e Brasil sejam obrigados a agir.

Peões, sim; mas de quem?

Acusa-se o Brasil de estar agindo como peão dos Estados Unidos. Contudo, no atual cenário geopolítico global, o Brasil é um peão; e, independentemente do que escolhamos fazer, vamos acabar ajudando os interesses de alguma das potências.

O discurso atual de que não queremos responder militarmente as agressões da Venezuela, por exemplo, é muito mais favorável à Rússia e à China do que aos Estados Unidos. O Brasil pode não ter financiado a Venezuela como os chineses e os russos, mas investimos bastante no regime bolivariano. A acusação de peão da China e da Rússia seria tão justa quanto, se não mais justa do que de peão americano.

Se os interesses do Brasil reforçarem “A” ou “B”, isso é secundário. O Brasil precisa pensar no que é melhor para si e no que é o certo a fazer.

Maduro rejeita ajuda humanitária pois está mais preocupado consigo do que com o povo que se diz representar. Melhor argumento contra sua legitimidade no cargo não poderia haver. Isso resume o que foi o regime de Maduro na Venezuela.

Ademais, o Brasil atuou ativamente para que a situação na Venezuela chegasse onde se encontra. Se for para ser peão de alguém, que se seja da sofrida população venezuelana. De modo que possamos nos redimir um pouco de nossos erros passados. Contudo, é mais fácil falar do que fazer.

É Possível Derrubar Maduro?

Entrarmos na Venezuela sem o aval das potências é uma ação de altíssimo risco. Infelizmente, o que Brasil e Colômbia podem oferecer, sozinhas, é pouco. As forças venezuelanas estão concentradas na fronteira, na costa, e em Caracas.

Somente empurrar as tropas da Venezuela para longe da fronteira seria um conflito complexo; o qual, se vencido, permitiria a Brasil e à Colômbia avançarem até Caracas – caso assim quisessem. Por mais dura que possa ser tal ação, o risco maior seria uma “vitória de Pirro”; na qual o governo brasileiro perdesse a opinião pública.

Maduro não precisaria, necessariamente, cair imediatamente. Reduzido a Caracas, isso permitiria a Assembléia Nacional a mudar-se de sede e governar a Venezuela por outra capital. Por um tempo, a Venezuela estaria dividida; mas Guaidó poderia governar ativamente respaldado pelas tropas estrangeiras.

Ajuda humanitária estaria livre para entrar em território venezuelano. A população carente ganharia ajuda e, fora de Caracas, estaria longe do jugo de Maduro. Seria o princípio da restauração da normalidade na Venezuela.

A Guerra Civil, por outro lado, continuaria; mesmo com Maduro enfraquecido. O governo brasileiro teria sofrido desgaste com o conflito, recuperado algo com a vitória na fronteira, mas estaria sofrendo novos desgastes com a guerra se arrastando.

É possível derrubar Maduro, mas cada segundo que as tropas brasileiras estiverem na Venezuela com Maduro alojado em Miraflores seria ruim para o governo brasileiro. É isso que Bolsonaro quer evitar a qualquer custo.

Somos responsáveis pela situação venezuelana, mas temos nossa própria casa para arrumar. Qualquer ação na Venezuela seria ótima… para a Venezuela. Bolsonaro, no entanto, é presidente do Brasil.

Entrar para forçar o “ok” de Rússia e China para a queda de Maduro é uma cartada que nosso país não precisa usar agora. No momento, ainda podemos atuar para que as potências concordem em derrubar Maduro. O acordo, no entanto, ainda não ocorreu. Maduro segue em Miraflores.

Conclusão

A confusão está à nossa porta por nossa culpa. O Brasil tem responsabilidade sobre o que acontece na Venezuela e sabe que o conflito é inevitável.

Agir agressivamente agora, porém, é muito arriscado, e os benefícios para nós não são muitos. É uma situação “High Risk/Low Reward”, que favorece os interesses russos e chineses na Venezuela. A escalada de acontecimentos pode vir obrigar o Brasil a forçar a mão e partir para o confronto direto – mais próxima dos interesses americanos.

Nesse jogo, o Brasil é um peão de si mesmo; tentando se posicionar da melhor maneira para que sua ação e o resultado final sejam bons para si. O destino da Venezuela, porém, será decidido entre Estados Unidos, Rússia, e China.

Nessa mesa, a gente tem voz, mas não tem voto. Quando essas três potências fecharem um acordo, Maduro cai.

Se não fecharem, o Brasil terá que escolher o lado que mais se aproxima dos seus interesses. Creio que será o lado do povo venezuelano.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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