Segue a terceira e última parte do texto sobre as semelhanças entre política e futebol; entre o jogo político e a rivalidade Grê-Nal. Na primeira parte, apresentou-se: (a) a política como um jogo obrigatório e imorredouro entre dois lados em permanente conflito; e (b) o que seriam “centro” e “extrema” e por que a distinção é importante. Na segunda parte, tratou-se da multidimensionalidade da política e sua relação com os oito tipos políticos básicos. Os tipos surgiriam da combinação dos lados em oposição nas dimensões organizacional (anarquista-controlista), anímica (liberal-conservador), e referencial (tradicionalista-progressista).

Tal qual como no futebol, essencialmente, os tipos básicos apenas seriam as posições adotadas pelas pessoas dentro do jogo – ainda que desconsiderando tanto ninguém jogar puramente em apenas uma das posições quanto as particularidades do debate público de cada sociedade num momento histórico específico. Afinal, apesar de o jogo de futebol ser sempre de futebol, as táticas dos times variam, e os jogadores movem-se constantemente durante uma partida.

Ademais, esses tipos não correspondem necessariamente aos grupos opostos que disputam o poder em cada comunidade. Normalmente, essas posições são ocupadas internamente em ambos os “times” a duelar no embate pelo poder político; na dimensão eleitoral.

O texto de hoje, continuando na analogia futebolística, trata, exatamente da dimensão eleitoral e da tensão entre os dois lados da disputa pelo poder político. Em suma, fala do Grê-Nal político propriamente dito.

PARTE III

4. A Tensão Mais Conhecida: Disputa de Poder

A dimensão eleitoral é a mais próxima de nossa experiência política e, por isso, a mais conhecida. A dimensão eleitoral é onde a disputa do Grê-Nal político realmente acontece; onde o jogo é, de fato, jogado.

A dimensão eleitoral é a qual comumente nos referimos quando falamos em “lado”, pois a tensão é resultado do confronto entre os grupos em oposição na disputa pelo poder político em qualquer sociedade.

  1. Governo x Oposição

Uma sociedade é necessariamente dividida politicamente entre “governo” e “oposição”. Há sempre quem exerça o poder, bem como seus apoiadores, e quem não exerça o poder e não esteja de acordo com aqueles que o façam.

Com isso, a dimensão eleitoral também acaba sendo dividida em dois lados opostos. Isso independe da quantidade de partidos políticos oficialmente existentes. A disputa dá-se entre duas forças em oposição, sejam essas: colorados e gremistas; oligarcas e democratas; ricos e pobres; plebeus e patrícios; Saquaremas e Luzías; Montéquio e Capuleto; mortadelas e coxinhas; liberais e conservadores; democratas e republicanos; Direita e Esquerda; etc.

Uma sociedade sadia faz com que toda a comunidade, ou a grande maioria dessa, sinta-se representada por ambos os lados. Igualmente importante, é permitir que as duas forças sempre se intercalem nas diversas funções de poder, mudando de papel constantemente. Apenas assim uma sociedade consegue usufruir dos benefícios da natureza conflitiva-cooperativa do jogo político.

  1. Significado pelo Contexto Histórico

    Os lados na dimensão eleitoral, no entanto, não possuem significado intrínseco algum. Cada sociedade tem sua “Direita” e sua “Esquerda” em oposição uma a outra; porém, o que cada lado representa varia conforme o tempo e o lugar. Esses lados são apenas embalagens. Os contextos históricos específicos determinam seus conteúdos, os quais são preenchidos e modificados pela própria atividade política.

Um exemplo simples é o que aconteceu com os principais partidos políticos dos Estados Unidos. Durante muito tempo, os conservatives e os defensores das autonomias dos estados eram representados pelo Partido Democrata; enquanto os liberals e os defensores de um governo central forte concentravam-se no Partido Republicano. Atualmente, inverteram-se os papéis dos partidos.

  1. Extrema: Política é Guerra Civil

Em nenhuma outra dimensão, a tensão entre centro e extrema faz-se tão perigosa quanto na dimensão eleitoral. Quem tem tendência de extrema nessa dimensão acaba por perceber o jogo político apenas unidimencionalmente, concentrando todas as demais tensões como se fossem inerentes igualmente à disputa de poder. Como resultado, na visão do extremista, os partidos passam a ter importância absurda; sendo elevados acima do todo social.

O extremista não tolera a tensão política e quer resolvê-la de uma vez por todas. Nesta dimensão, a conseqüência acaba sendo perder-se a diferença entre política e guerra civil. O extremista inverte um famoso ditado, fazendo com que política se torne uma guerra por outros meios. É preciso afastar o outro lado da política; se necessário, matando os opositores. Apenas movendo-se para o centro é possível evitar-se o pior.

  1. Centro: Uma Constituição de Todos

O papel da tendência de centro em todas as dimensões é o mesmo: tornar nítida a qualidade cooperativa da disputa política e fortalecer os laços comunitários, ainda que a tensão entre os lados jamais termine. Na dimensão eleitoral, essa função é tão fundamental quanto de difícil execução. Por isso que a constituição da comunidade política – as regras do jogo – precisa ser bem feita.

O desafio de qualquer comunidade constituída é fazer com que todo mundo em ambos os lados se sinta partícipe e representado na estrutura política da sociedade – mesmo as minorias de oposição. Isso é impossível, mas é o objetivo. Para conter as tendências de extrema, preciso manter esse foco.

Por essa razão, a própria Constituição deve ser de Centro. Não apenas qualquer centro, mas um centro historicamente realizável. Em suma, a Constituição deve respeitar as tensões políticas concretas da sociedade e permitir que essas sejam trabalhadas politicamente sem que haja rupturas sociais. Deve sempre haver um próximo Grê-Nal a ser disputado.

FINALIZANDO

Em resumo, é necessário entender que a política é um jogo do qual somos obrigados a participar. Fez-se analogia ao futebol, mais especificamente ao clássico Grê-Nal, para facilitar a compreensão desse fenômeno.

O jogo nasce da necessidade do ser humano de se organizar politicamente em sociedade. Com a política, as opiniões divergentes ganham destaque, e o conflito começa. O jogo político, assim como o futebol, é naturalmente conflitivo, pelo que pode tornar-se perigoso.

Pelo conflito, experimentam-se diversas tensões decorrentes de oposições diferentes e complementares. A tensão principal ocorre pela oposição entre as tendências de centro (que fortalecem a comunidade política) e de extrema (que enfraquecem a comunidade política). Numa sociedade sadia, prevalecem as tendências de centro, ainda que o conflito político real possa ser intenso. Afinal, as tendências de centro não eliminam os lados.

A partir das demais tensões, é possível observar oito posições políticas básicas, que abarcam as formas de como as pessoas jogam o jogo político. Esses tipos são teoricamente compatíveis com ambos os lados políticos da dimensão eleitoral. Os tipos básicos são relevantes, pois permitem uma maior compreensão das posturas tomadas pelas pessoas diante de questões políticas práticas.

A dimensão eleitoral é onde acontece a disputa pelo poder. Independentemente da quantidade de partidos políticos, haverá sempre dois lados em disputa um contra o outro: um exercerá o papel de “governo”; o outro, o de “oposição”. Hoje, no Brasil, costuma-se chamá-los de “Direita” e “Esquerda”.

Grê-Nal

Dizem que o Grêmio só é grande por causa do Internacional, e vice-versa. Um cresceu às custas de querer ser melhor do que outro – o que é medido a cada clássico, a cada campeonato. Do conflito entre rivais, surgiram dois dos maiores clubes de futebol do mundo. Suas grandezas são interdependentes. Nenhum seria o que é hoje não fosse a presença do outro. Corretamente entendido, o Grê-Nal é uma disputa conflitiva-cooperativa: um embate de mútuo benefício.

Numa sociedade sadia, a disputa política deve ser como o Grê-Nal: conflitiva-cooperativa; voltada para o benefício de todos. Para isso, os grupos que disputam o poder, a Direita e a Esquerda, combinados, devem buscar representar toda a sociedade, cada qual a sua parte. Igualmente, tais grupos devem alternar-se constantemente nos papéis de governo e de oposição. Por fim, ainda que sempre em disputa, os lados devem buscar um ao outro para a formação de consensos mínimos que permitam a perpetuação do jogo político.

Apenas assim, as tendências de extrema são reduzidas, e os membros da comunidade sentem-se presentes no resultado alcançado.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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