O homem como ser alheio ao meio ambiente é uma perspectiva iluminista e moderna. Antes, o homem compreendia-se imerso no mundo, e, a partir desse lugar no cosmos, é que o homem conhecia todo o resto.

O homem e o meio ambiente eram inseparáveis, e o bem de um era entendido como bem do outro. É preciso recuperar essa noção da existência humana no cosmos. Só assim que a harmonia entre o homem e o meio ambiente será recuperada.

O homem, o mundo, e as perspectivas

À perspectiva do homem inserido no mundo dá-se nome de “geocentrismo”. Geocentrismo, pois, não significa que a Terra seja de fato o centro do universo, mas, sim, que seja o centro da perspectiva humana do universo. Por exemplo, do nosso ponto-de-vista, o sol gira em torno da Terra, e isso não se modificou com o reconhecimento de perspectivas diferentes.

Todos os dias, o sol parece surgir no Leste e desaparecer no Oeste. Para que entendêssemos que a Terra gira em torno do Sol, foi preciso que nos colocássemos na perspectiva do Sol. Isso trouxe consequências.

Por volta de 1500, há uma enxurrada de acontecimentos que acabam abalando a crença em verdades até então absolutas. É esse período de contestações que marca o início da Idade Moderna. Há a queda de Constantinopla e o fim do Império Romano do Oriente.

Há, também, as grandes navegações, a descoberta da América, e a comprovação de que a Terra é esférica. Há, igualmente, a experiência da descoberta de uma perspectiva diferente para observação dos fenômenos do cosmos.

A experiência de sair da Terra e observar o universo a partir da posição do Sol afetou astrônomos como Nicolau Copérnico e Galileu Galilei. Eles passaram a defender que a perspectiva geocêntrica, corrente até então, deveria ser substituída pela heliocêntrica. Para eles, o Sol – não, a Terra – seria o centro do universo; e para entender o cosmos corretamente, o homem deveria abrir mão do seu lugar e assumir a posição do Sol.

Copérnico e Galileu estavam equivocados, o Sol é tão centro do universo quanto a Terra, mas a “caixa de pandora” que abriram jamais seria fechada novamente. Giordano Bruno é quem, famosamente, percebe o equívoco e conclui que o universo não possui um centro determinado. Portanto, as perspectivas geocêntricas e heliocêntricas seriam equivalentes. Contudo, as conclusões de Bruno não surtem efeito – ele acaba sendo condenado pela Igreja e morto.

Desde as polêmicas heliocêntricas, o homem não está mais preso à sua perspectiva empírica e à autoridade da Igreja. Agora, o homem é livre para imaginar-se além de si e entender o cosmos sob infinitas perspectivas. A partir da Modernidade, é finalmente possível ao homem imaginar o universo desde qualquer ponto-de-vista, inclusive de “lugar nenhum”.

O homem do lado de fora do “meio ambiente”

Essa liberdade de assumir qualquer perspectiva fez com que o homem passasse a observar o mundo “pelo lado de fora”. O homem saíra da “Idade das Trevas”, onde era mera parte da natureza. Tornara-se um observador externo, capaz de julgar e subjugar o mundo como bem entendesse; à luz da Razão.

Com o Iluminismo, a relação humana com o meio ambiente muda por completo. Essa perspectiva de fora passa a autorizar o homem a explorar e controlar a natureza como entender seja necessário e benéfico aos seus interesses.
As revoluções industriais e tecnológicas vêm a reboque dessa mudança. Com isso, juntamente com uma penca de benefícios, vem o aumento da poluição, de destruição de florestas, de extinção de animais, etc.

Algo não vem, todavia – a vitória do homem sobre a natureza. Por mais que tenha tentado, o ser humano não conseguiu fazer um vassalo do meio ambiente. Dessa derrota, surgiram contestações, como os movimentos ambientalistas e animalistas que observamos hoje.

No entanto, nem os “animalistas” e nem os “ambientalistas” abandonaram a perspectiva moderna e iluminista. Continua-se a falar da relação do homem com o meio ambiente a partir de uma perspectiva de “fora do mundo”, como se estivessem em “lugar nenhum”.

A única diferença é que, ao invés de divinizar o homem, o animalismo e o ambientalismo divinizam o mundo; e acabam demonizando ao homem – i.e., a si mesmos. A solução do ambientalismo e do animalismo para as questões referente ao meio ambiente é manter o homem do “lado de fora”.

O homem é visto como algo alheio ao e inimigo do meio ambiente. Para proteger a Natureza, é preciso sacrificar o homem. Essa noção precisa ser rechaçada por ser suicida. Ela inclusive tem ligações com a redução na taxa de natalidade observada nos países ocidentais.

Não se tem mais filhos porque o homem é o perigo do mundo. Para que o valor do meio ambiente, dos animais, e dos homens seja propriamente restaurado, é preciso recolocar o homem dentro do mundo.

O meio ambiente sagrado

O meio ambiente e os animais não são deuses, e os homens não são demônios. Ainda assim, o animalismo e o ambientalismo não estão de todo errado. Esses movimentos trazem consequências positivas, assim como há pontos positivos da modernidade e do iluminismo.

Ao divinizarem o mundo, o animalismo e o ambientalismo nos ajudam a relembrar que há algo de sagrado no mundo. Isso fora perdido com a Modernidade; quiçá, até mesmo antes – graças ao Cristianismo.

Para os pagãos, o mundo era mágico e divino, e repleto de deuses e seres mitológicos. Os fenômenos e elementos da natureza eram divinizados. Cultuavam-se as rochas, as plantas, e os animais; o sol, a lua, e as estrelas; as águas, os ventos, as nuvens, os raios, e os trovões; etc. Atos contrários à natureza eram compreendidos como um ato contra os deuses, trazendo consequências às pessoas e às comunidades.

Com o Judaísmo, o Cristianismo, e o Islamismo, vêm a noção de que Deus está no Além; não Se confundindo com o mundo. O cosmos perde, assim, um pouco de seu encanto e magia. As explicações místicas são substituídas por explicações científicas, e os deuses pagãos caem em desuso.

Nesse sentido, a Modernidade apenas segue um caminho que já vinha sendo trilhado anteriormente. Essa leva às últimas consequências a desdivinização do meio ambiente. Porém, comete-se um erro fundamental.

Não havia, nem há, necessidade alguma de se abandonar a perspectiva primordial, empírica, do homem no cosmos. O problema é que a perspectiva de “lugar nenhum” não existe.

Colocar-se fora do mundo é colocar-se no lugar de Deus. Se há Deus, fazer isso é o maior pecado que se pode cometer; e se não há Deus algum, fazer isso não tem sentido – é assumir o papel de Nada. De qualquer modo, é errado para o ser humano sair do cosmos.

O lugar do homem no mundo

É preciso, pois, recuperar o lugar do homem no mundo. Nós fazemos parte da natureza. Inexiste qualquer oposição entre o homem e o meio ambiente, e ambos são integrantes de um mesmo cosmos.

O meio ambiente, portanto, tem algo de sagrado para nós, porque somos inseparáveis um do outro. Essa é a noção que precisamos reencontrar urgentemente.

Por que os cristãos têm o costume de rezar antes de comer? Já se fizeram essa pergunta? Nem todo o cristão sabe a resposta. Muitos cristãos são modernos e iluministas, tanto quanto os ateus da porta ao lado. Pois esse ato ajuda a entender o lugar do homem no mundo.

Todo alimento ali posto na mesa era vivo e foi sacrificado por necessidade, para nossa subsistência – do ser humano. Para o cristão, Jesus Cristo se sacrificou por necessidade para nós, os humanos – todos os humanos.

Portanto, para o cristão, os alimentos na mesa representam o sacrifício de Deus. Cristo sacrificou-se para a salvação espiritual, e o alimento, para salvação do corpo – para que não morramos de fome. Portanto, o cristão reza antes das refeições para agradecer pelo sacrifício do alimento que será consumido; para lembrar que tal sacrifício não pode ser em vão.

A reza antes da refeição para os cristãos é uma forma de educar. Ensina que, uma vez alimentados e sadios, precisamos honrar aos que deram a vida por nós. Ensina aos cristãos aquilo que era óbvio para os pagãos, e que deveria ser evidente para qualquer ser humano: é necessário retribuir ao mundo o sacrifício feito para o nosso bem.

Isso vale até para o que não é alimento (e.g., uma árvore) ou não é vivo (e.g., um minério) que matamos ou extraímos para utilizar em nosso benefício. Não são grátis. Não pode haver desperdício, e é preciso haver contrapartida. O bem do meio ambiente deve ser sagrado para nós.

Conclusão

É preciso que cuidemos da qualidade da água que bebemos, que nos banhamos, que irrigamos nossos campos, que utilizamos na indústria, etc. É necessário que cuidemos do ar que respiramos. É necessário que reduzamos desperdício.

Precisamos estar cientes de que: um agricultor, se não trabalhar para melhorar o solo que usa, é um péssimo agricultor; um minerador, se não trabalhar para reutilização dos rejeitos da mineração que faz, é um péssimo minerador; um lenhador, se não trabalhar para preservar as florestas de onde extrai o seu sustento, é um péssimo lenhador; etc. Isso vale para pessoas físicas e jurídicas.

O homem tem na natureza uma aliada. É necessário que a natureza tenha no homem um aliado também. Inexiste qualquer problema com a ação do homem na natureza desde que seja feita com respeito e com a devida contrapartida. O homem faz parte do meio ambiente, e quanto melhor estiver o meio ambiente, melhor também estará o homem agindo dentro desse.

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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