Na segunda-feira, a bolsa argentina despencou. Perdeu mais de 20 bilhões de dólares em valor. A causa foi um fato político.

Primárias Presidenciais

No domingo último, os argentinos foram às urnas para votar nas primárias obrigatórias, as quais definem os candidatos para as eleições nacionais. Na Argentina, é como se eleição a fosse realizada em três turnos, com a primeira etapa definindo os candidatos.

Na próxima, em 27 de outubro, elegem-se deputados e senadores, além de vota-se para presidente. Dependendo do resultado, já pode haver um presidente eleito – basta que o primeiro colocado supere a 45% dos votos válidos.

O atual presidente, Mauricio Macri, terminou as primárias em segundo lugar, tendo recebido 32% dos votos. O primeiro colocado, Alberto Fernández, cujo vice é a ex-presidente Cristina Kirchner, recebeu 48%. Votos a candidatos eliminados e abstenções chegam a 25%.

Na primeira ronda, o kirchnerismo, movimento que governou a Argentina de 2003 a 2015, alcançou o percentual de votos suficientes para evitar um confronto direto em 24 de novembro.

O que Significa o Resultado

Foi diante desse cenário que a bolsa despencou. A decepção com o Macri é compreensível, mas de aí a eleger o kirchnerismo vai uma distância de Iguaçu a Cerro Castor. Então, o que estaria levando os argentinos a tomar tal posição?

Em resumo, e de uma maneira seca e direta, os argentinos querem um milagre: arrumar o país sem mudar nada.

A situação argentina é delicadíssima. Macri não conseguiu conter os gastos públicos. O estado argentino é paquidérmico. As reformas, se feitas, piorariam a situação no curto prazo.

Ademais, descontentaria muita gente privilegiada pelo estado-de-coisas. Aí, ninguém faz nada. Apesar das dificuldades, Macri, no entanto, falhou; no mínimo, em fazer os argentinos entenderem o problema. O interior votou em peso no kirchnerismo.

O Peronismo

Macri não é peronista. Desde a fundação do Partido Justicialista por Juan Domingos Perón, em 1946, houve quatorze eleições presidenciais na Argentina (e três golpes de estado). Os peronistas venceram todas as eleições presidenciais que participaram (foram proibidos de concorrer nos pleitos de 1958 e 1963), com exceção de três: 1983, 1999, e 2015.

A oposição (principalmente da Unión Cívica Radical) ajudou bastante nessa tarefa: os não-peronistas não conseguiram evitar o golpe de estado de 1966; Alfonsín (1983-1989) em que pese tenha garantido a redemocratização do país, deixou a Argentina em situação econômica calamitosa (qualquer semelhança ao Sarney NÃO é mera coincidência); e De la Rúa (1999-2001) viu-se obrigado a renunciar na metade do mandato. Porém, isso não chega a ser novidade na Argentina.

A História Política Argentina

A história política argentina é extremamente conturbada. Cheia de conflitos armados, com dominância de partidos praticamente únicos liderados por uma figura de peso. O século XIX testemunhou sequências de guerras civis entre federalistas (defensores das autonomias provinciais) e unitaristas (defensores de um governo nacional centralizado). Já o século XX viu cinco golpes-de-estado bem sucedidos entre 1930 e 1976.

O Consenso Perverso

Porém, por detrás dessa intensa e sangrenta disputa política, observa-se um perverso consenso. Independentemente de quem esteja no poder, os fundamentos da República Argentina permanecem iguais: governo central forte; liderança carismática; máquina pública inchada; e grandes gastos públicos. Apenas mudam-se, em parte, os beneficiários.

Esse consenso vem desde o começo, quando os federalistas ganham a guerra civil em 1831, mas acabam estabelecendo um governo central forte – sob o comando de Juan Manuel de Rosas até 1852.

Após a constituição de 1853, a qual deveria ser federalista, há uma guerra civil vencida pelos unitaristas. Bartolomé Mitre do Partido Unitario governa a Argentina de 1861 a 1868. Finalmente, tal regime consolida-se no “período de ouro” daquela república, entre os anos 1874 e 1916; fruto de uma aliança entre federalistas e unitaristas contra Mitre.

Influência no Brasil: golpe de 1889

Tal aliança resultou numa confederação de oligarquias regionais. As autonomias regionais, previstas na constituição argentina de 1853, eram de fachada, pois todas eram vinculadas ao governo central.

Esse arranjo argentino é o que inspirou o golpe de 1889 no Brasil, a constituição de 1891, e a República Velha. Tanto lá quanto cá, havia um único partido dominante: se aqui os estados eram governados pelas versões locais do Partido Republicano; na Argentina, o domínio absoluto era do Partido Autonomista Nacional (PAN), liderado por Julio Argentino Roca.

PJ e UCR: os Golpes-de-Estado

O grupo de Mitre volta ao controle do país, sob o nome de Unión Cívica Radical (UCR) e com Hipólito Yrigoyen à frente; mas acabam destituídos por um golpe de Estado em 1930. O regime de 1930 é derrubado por um segundo golpe de estado em 1943. É esse golpe que vê a ascensão de Juan Domingos Perón no cenário político argentino.

Eleito presidente no pleito de 1946, Perón funda o Partido Justicialista (PJ). Desde então, o PJ e a UCR são os maiores partidos argentinos. Porém, disputas internas no seio do peronismo e do radicalismo acabam por fazer que sejam comuns alianças extra-partidárias.

Claro, isso quando os militares não se intrometem como em 1955, 1966, e 1976.
PJ e UCR: Redemocratização

Desde a redemocratização, peronistas e radicais aparentemente alternam-se no poder: Alfonsín (UCR); Menem (PJ); Fernando de la Rúa (UCR); Néstor Kirchner (PJ); Cristina Kirchner (PJ); e Mauricio Macri (PRO, com o apoio da UCR) foram eleitos. Porém, de la Rúa renunciou no meio do mandado.

Os anos restantes foram governados por peronistas. Em anos, o peronismo leva vantagem de 24 a 11 – sendo que entre Menem e Cristina, o placar estava 24 a 2. Em resumo, na Argentina de hoje, o domínio é do Partido Justicialista; não mais, de Perón, mas de Cristina Kirchner.

FINALIZANDO

Diante do contexto histórico, a mera formalidade da realização de eleições e da sucessão presidencial que estão a ocorrer na Argentina já poderia ser encarada como uma vitória. Politicamente, a República Argentina é como o bebê que está conseguindo comer sozinho com a colher, apesar de ter sujado o rosto, a roupa, a mesa, e o chão no processo.

Não se pode exigir muito mais do que isso deles. Só resta-nos comportar como se fôssemos o adulto da relação. É melhor sorrir, dar-lhes os parabéns, e limparmo-nos nós mesmos a sujeira do nosso hermano:

 

¡Que grande ya eres, manito! Muy bien, querido. Muy bién…

Autor

Paulo Roberto Tellechea Sanchotene

Mestre em Direito (UFRGS) e em Política (CUA, EUA), tendo escrito e apresentado trabalhos, no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. Fez movimento estudantil de Direita quando a Direita brasileira toda entrava numa kombi e sobrava, e quase apanhou do ator Danny Glover em ação promovida pelo IL/RS num Fórum Social Mundial. Hoje é casado, pai de dois filhos, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, joga rúgbi, administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna), e só cria confusão pela internet.

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